terça-feira, 12 de agosto de 2008

As Últimas Palavras do Cristo na Cruz




São Roberto Belarmino


Capítulo I

Explicação literal da quarta Palavra:
“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste”

Explicamos na parte anterior as três primeiras palavras pronunciadas por Nosso Senhor no pulpito da Cruz, acerca da hora sexta, pouco depois da crucificação. Nesta parte explicaremos as quatro faltantes palavras que, dados a escuridão e o silêncio de três horas, proclamou o mesmo Senhor daquele púlpito com voz forte. Mas antes convém explicar à brevidade o que é, e donde vem, e para que adveio a escuridão que se abateu entre as três primeiras e as quatro últimas palavras, pois assim disse São Mateus: “Desde a hora sexta até a nona, cobriu-se toda a terra de trevas. Próximo da hora nona, Jesus exclamou em voz forte: Eli, Eli, lammá sabactáni? - o que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (27, 45,46). E saiu a escuridão dum eclipse do sol, tal como nos narra São Lucas: “E houve o eclipse do sol” (23, 44), disse.

Eis que se nos apresentam três dificuldades. Em primeiro lugar um eclipse do sol ocorre em lua nova, quando a lua está entre a terra e o sol, e tal não pudera acontecer na morte do Cristo, pois que a lua não estava em conjunção com o sol, em lua nova, mas estava em oposição ao sol, em lua cheia, já que a Paixão deu-se na Páscoa dos judeus que, segundo São Lucas, foi a catorze do mês lunar. Em segundo lugar, ainda que estivesse a lua em conjunção com o sol ao momento da Paixão, não poderia a escuridão durar três horas, i. é, da hora sexta à nona, pois que um eclipse do sol não dura tanto tempo, especialmente um eclipe total, quando de tão escondido ao sol se lhe chamam trevas. Uma vez que a lua é mais veloz que o sol, segundo a natureza de seu movimento, escurece ela a superficie toda do sol por um breve período apenas e, apesar de estar o sol em movimento constante, não obstante distancia-se a lua, que impede aquele astro de alumiar a terra. Finalmente não é possivel a conjunção entre sol e lua mergulhar a terra inteira em trevas, pois a lua é menor que ambos o sol e a terra, daí por sua interposição não pode a lua escurecer o sol a ponto de privar o universo desta luz. E se há quem sustente que a opinião dos Evangelistas refere-se tão-somente à terra da Palestina, e não ao mundo inteiro em absoluto, dê-se por refutado no testemunho de São Dionísio Areopagita, que na Epístola a São Policarpo declara que, na cidade de Heliópolis do Egito, observara este eclipse do sol, e provara destas horríveis trevas. Flego, historiador grego e gentio, relata o eclipse ao dizer: “No quarto ano da ducentésima segunda olimpíada, dera-se o maior e mais extraordinário eclipse já ocorrido, pois à hora sexta a luz do dia fizera-se em trevas de noite, de modo que as estrelas aparecessem nos céus”. Este historiador não escrevia da Judéia, sendo citado por Orígenes em Contra Celso, e Eusébio nas Crônicas Sobre o Trigésimo Terceiro Ano do Cristo. Luciano, mártir, dá testemunho do acontecimento: “Perscruta os anais e encontrarás que ao tempo de Pilatos desapareceu o sol, e o dia invadido de trevas”. Rufino dá notícia das palavras de São Luciando na História Eclesiástica, de Eusébio, que traduziu a referida notícia em latim. Também Tertuliano, no Apologeticon, e Paulo Orósio, em sua história, todos enfim, falam acerca do globo inteiro, e não apenas da Judéia. Atentai pois à solução das dificuldades. O que acima dissemos, que um eclipse do sol ocorre em lua nova e não cheia, está correto quanto ao eclipse natural; mas o eclipse da morte do Cristo foi extraordinário, e não natural, pois que era efeito d’Aquele que fez o sol e a lua, o céu e a terra. São Dionísio, no passo acima referido, afirma que ao meio-dia viram ele e Apolofanes a lua aproximar-se do sol com movimento rápido e original, e viram a lua de prontidão defronte do sol até à hora nona, e assim como foi voltou para seu lugar a leste. À objeção de que um eclipse do sol não poderia durar três horas, de modo que por todo o tempo trevas cobrissem a terra, vamos responder que se fosse um eclipse natural e ordinário estaria certo: não obstante este eclipse se não regeu por leis naturais, senão pela vontade do Criador Onipotente, que sem esforço embargou a lua e quietou-lhe o movimento ante o sol, sem que se movesse nem mais rápido nem mais lento que o grande luzeiro, conduzindo-a de modo extraordinário e veloz desde a sua posição leste, para depois de três horas retorná-la a seu lugar natural nos céus. Finalmente, não se poderia notar em todas as partes do mundo um eclipse, pois a lua é menor que a terra e muito menor que o sol. Isto é certíssimo em relação à simples interposição da lua; mas o que a lua por si só não faria, fê-lo o Criador do sol e da lua, com só deixar de cooperar com o sol na tarefa de iluminação do globo. Novamente, não é certo, como se supõe, que a causa das trevas universais foram nuvens espessas e escuras, pois é evidente, pela autoridade dos antigos, que durante estes eclipse e trevas brilharam as estrelas no céu; nuvens espessas escureceriam o sol, mas também a lua e as estrelas.

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