domingo, 17 de agosto de 2008

Trinitarismo X triteísmo.

Por Domingos Pardal Braz*

Antes de iniciar mais esta conversa teológica gostaria de notificar o amigo leitor de que estou convalescendo dum terrivel resfriado e que por isso não foi possivel postar nada durante o mês anterior.

Estou consciente de não ter completado a exposição exegética do Salmo 22, mas, ela será postada a contento.

Hoje pretendo abordar algumas questões bastante polêmicas no terreno da teologia infra trinitária e da soteriologia ocidental, seja romanista ou protestante.

É sabido que até o século IV a obra de Cristo foi compreendida como um resgate planejado por Deus (Pai, Filho e Espírito Santo) tendo em vista resgatar a humanidade do jugo do poder das trevas representado por demônios, eões e espíritos de toda casta, no caso, rivais da divindade...

O fundamento dessa teoria é o contratualismo paulino, expresso nestes termos "Rasgou o documento de nossa perdição expondo ao escárnio as potestades todas dos ares.". Segundo os expositores e comentaristas ante nicenos desta passagem, o despertar da consciência nos primeiros homens colocou-os diante dum terrivel dilema: decidir em nome da espécie/grupo a quem se serviria no decorrer da História: Deus ou o Diabo...

Tendo a liberdade aflorado no homem por disposição da providência, cabia a esse mesmo homem optar livremente por servir e reverenciar a um desses dois poderes: a luz ou as trevas.

Como no exercício de sua liberdade o homem teria escolhido servir ao poder das trevas, segue-se necessariamente que, após essa infeliz escolha, o poder das trevas se tornasse seu legítimo suzerano. Passou pois a humanidade como um todo ao domínio de Satanaz segundo a escolha livre de seus ancestrais...

Sucedeu-se porém que praticando o mal e afastando-se de seu verdadeiro Criador e Senhor a humanidade colheu apenas desgraças, sofrimentos, dores e infelicidades, de tal maneira que caiu em sí e deplorou seu triste estado, maldizendo a opção de seus ancestrais. Se os pais apostataram os filhos sentiram viva nostalgia de Deus e se arrependeram em seus corações...

O Criador por sua vez não podia ter permanecido na ignorância ou na indiferença quanto aos sofrimentos, suspiros e lágrimas de suas criaturas, feitas a sua imagem e semelhança com o supremo objetivo de glorificar sua natureza, por isso que, em previsão deste arrependimento, tomou a cabo desde toda a eternidade resgata-las do domínio infernal.

Portanto - segundo a teoria em questão - Deus teria feito uma barganha com Satanaz, dispondo-se a comprar a liberdade dos seres humanos conforme o preço por ele designado. O preço como todos sabem teria sido a encarnação, humilhação e morte do próprio Deus, Satanaz, cego de orgulho teria acordado em abrir mão do gênero humano pela possibilidade de bulir com seu próprio Senhor e Criador por algumas horas... e assim foi feito.

Deus tornou-se verdadeiramente homem, para que os homens, verdadeiramente livres - ou seja resgatados por sua humilhação na cruz - pudessem tornar-se deuses...

Eis, suscintamente exposta a doutrina soteriologica do resgata, preponderante nos meios Cristãos ante-nicenos e amplamente desenvolvida por Origenes, comporta alguns aspectos jocosos, como a rivalidade Deus/diabo, apresentando o último como uma espécie de anti-deus ou deus rival, mas também possui aspectos grandiosos, especialmente no que concerne ao plano infra trinitário, mantendo a unidade de planejamento e de ação no que tange as três pessoas divinas.

Pois o abandono desta teoria - no Ocidente, a partir do século XII - implicará necessariamente numa fragmentação volitiva no que concerne as pessoas divinas e seu papel na obra remidora.

Por incrivel que pareça - e o podemos tomar como ponto de partida algumas obras atribuidas ao grande Atanásio - gradativamente, a figura do Diabo, enquanto supremo inimigo do gênero humano, foi sendo substituida pela figura da primeira pessoa da Santíssima Trindade, ou seja do Pai Eterno, este foi sendo cada vez mais apresentado como um personagem irritado, rancoroso e vingativo tendo em vista o pecado dos primeiros pais.

Completamente desprovida de piedade ou de comiseração essa consciência divina era apresentada pelos teologos latinos - a começar por Anselmo, o codificador da doutrina da expiação - como odiando ao gênero humano e desejando se possivel destrui-lo. Em oposição a figura vingativa do Pai, aparecia a figura da segunda consciência divina, o Filho, este sim repleto de misericórdia, portanto, segundo essa teoria, o Filho teria aceitado encarnar-se e ser crucificado para aplacar a ira do Pai e para reconciliar a humanidade com ele...

Como ja foi dito milhares de vezes: é deus, matando deus, para aplacar deus...

Depreende-se desta teoria que deus é o grande masoquista celestial...

Lutero chegará ao extremo de dizer que durante o transe do calvário o Pai não só abandonou, como odiou o filho enquanto receptáculo dos pecados da humanidade... outros dirão ainda que durante os três dias em que passou morto o Salvador ardeu nas míticas chamas do inferno, para poder emancipar os seus adeptos...

E assim deus teria odiado deus e deus teria condenado a sí mesmo em virtude da união hipostatica que há entre a humanidade e a divindade de Cristo. Diante disso muitos teologos irredutiveis optaram por fazer do Cristo duas pessoas, mas isso já é uma outra história...

Importa antes de tudo perceber que essa substituição de Satanaz pelo Pai no plano divino, comporta necessariamente a adoção duma teologia que já não é trinitária, mas triteista...

Pois como se pode compreender muito facilmente, segundo a teoria da expiação, a natureza divina comporta não apenas uma distinção de pessoas, mas uma distinção, ou melhor um conflito, um antagonismo de vontades...

Ora, um dos aspectos do trinitarismo é justamente o perfeito acordo entre as vontades das consciências e a total ausência de conflitos entre si... evidentemente porque tal conflito afastaria ou melhor dizendo oporia as pessoas divinas e destruiria a harmonia infra trinitária. Já não teriamos uma só natureza manifestada pela unidade ética/moral entre as consciências que dela fruem, mas naturezas distintas manifestadas por esse conflito ético/moral vigente entre o Pai e o Filho.

O Filho efetivamente apresentaria as credências de um ser divino: generosidade, filantropia, caridade, misericórdia, etc o Pai tovadia assumiria a condição de um deus, no mínimo imperfeito, vingativo, rancoroso... seria uma espécie de anti-deus ou de satanaz divinizado...

É possivel que essa visão de Pai maligno tenha sido forjada segundo um quadro histórico medieval no qual o Bispo de Roma ou Papa (cuja figura nos painéis trinitários representa amiude o Padre Eterno nas igrejas latinas) pai comum e líder da igreja latina, pudesse odiar e praticar todas sorte de maldades sem comprometer com isso as suas prerrogativas...

Tendo em vista que o Verbo encarnado descreveu-nos seu Pai como um Pai e não como um déspota, como um Ser bom a caritativo e no como um Ser todo-poderoso e mesquinho, não podemos deixar de notar nessa lenta transformação um franco retorno as noções judaicas ou pré Cristãs de divindades, segundo as quais aquilo que distingue as Criaturas da divindade não é a nobreza de sentimentos, mas como já foi dito a força...

Assim o Pai eterno não deixa de ser divino enquanto permanece forte ou onipotente, mesmo que sua personalidade comporte aspectos nada dignos de um Ser perfeito como o rancor... diante disso podemos relacionar a nova soteriologia, preponderante nas igrejas romana e protestante com os padrões ante-cristãos (judaicos e pagãos) de teologia, retomados após a invasão do Ocidente pelos povos bárbaros. Pois é sabido que no estádio cultural em que se encontravam não seriam capazes de assimilar a idéia genuinamente Cristã (ético/moral) de divindade.

O papado significaria ou representaria concretamente essa idéia do Pai capaz de odiar e de praticar o mal...

Levado por considerações desse tipo Lutero será levado a perguntar diversas vezes se deus não era o diabo ou se o diabo não era deus, porque segundo a teologia moderna eles só se distinguem um do outro pela força. "deus é bom fazendo o mal" porque é mais forte e o diabo mal porque mais fraco... um critério bem Nietzcheano por sinal...

O próprio Nietzche salientou a consonância entre a teologia do antigo testamento e suas teorias de poder, em cuja gênese encontra-se também o luteranismo, assim as formas modernas de Cristianismo, vão todas convergindo para um padrão de força judaico/pagão figadalmente opos a ética Cristã.

A Trindade é por assim dizer destruida ou profanada pela destruição do vínculo moral que une suas três consciências divinas, a figura do Supremo ingênito é completamente desfigurada ou satanizada, a própria obra remidora será atingida em sua amplitude dando lugar a teorias soteriologicas elitistas que tendem a privilegiar certos grupos de pessoas em detrimento a humanidade como um todo. Pois atingido o cárater paterno de Deus ou a noção paterteista de religião, nada estará a salvo no sistema Cristão.

Não pense o leitor que nossa crítica tem por escopo resgatar a figura ou o papel do assim chamado Satanaz no contexto Cristão.

Os sspes e doutores dos primeiros séculos necesitavam dela para resguardar a dignidade divina. A nós porém, essa figurinha mitologica tomada de empréstimo aos antigos persas não faz falta...

Negando sua existência real - mantemo-lo como símbolo - nem por isso atribuimos as ações que lhe eram atribuidas ao Ser Supremo, mas a seu verdadeiro autor: o Ser humano, verdadeiro executor de bem e inventor do mal...

Nosso único objetivo foi alertar a Cristandade Ocidental quanto aos vícios internos e letais de sua soteriologia.

Afinal porque não admitir que Deus - Pai, Filho e Espírito Santo - planejou desde toda e a eternidade e executou no tempo o resgate de todos os seres humanos com relação ao mal que eles mesmos criaram? A Trindade como um todo restaurando todos os seres a que deu a luz e que por desvio volitivo engendraram o mal.

O forte abraço a até o próximo Domingo se tudo der certo.


*Domingos é cristão ortodoxo, e professor de História e Filosofia

Um comentário:

Anônimo disse...

"Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam;" (João 5 : 39)

"Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne," (Hebreus 10 : 20)

"Porque vós sois as minhas testemunhas. Porventura há outro Deus fora de mim? Não, não há outra Rocha que eu conheça." (Isaías 44 : 8)