quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A esquerda, os "cultos afros" e os evangélicos

O candidato do PSOL, o engenheiro Ivan Valente, anuncia que pretende espalhar pela cidade "comitês de bairro de combate ao racismo e valorização da cultura afro-brasileira", além de promover um encontro municipal de religiões de matriz africana. Seria uma forma de proteger o direito à liberdade religiosa desses grupos, que estariam sendo ameaçados por evangélicos. O tema também aparece em programas de outros candidatos[1].

O trecho acima foi publicado no Estadão, e me fez fazer alguns questionamentos em relação a tal projeto do mencionado partido de esquerda.

Primeiramente, acho bastante estranho um candidato a prefeito querer promover um encontro municipal de religiões de matriz africana. Fico imaginando se um prefeito quisesse promover um encontro municipal das religiões de matriz protestante, ou de matriz evangélica, logo seria tachado de fundamentalista, ou de violar os “cânones” do Estado Laico... Além do que, se promover a cultura afro significa proteção contra os evangélicos, isto quer dizer que no pacote denominado “cultura afro” está também a intenção de se proteger uma religião que se pensa identificar com tal cultura. E, em assim procedendo, não se está “fugindo” da idéia de um estado “laico”, tão defendida pelos esquerdistas?

Em segundo lugar, não estaria a liberdade religiosa destes grupos devidamente protegida já constitucionalmente? Que eu saiba, tais grupos têm liberdade de organizarem suas reuniões, seus eventos, sem que sejam incomodados por crentes de outras religiões. E, se forem desrespeitados, como parece ter sido o caso de alguns neófitos evangélicos no Rio de Janeiro, a polícia e o Ministério Público poderão e deverão ser acionados.

Em terceiro lugar, que tipo de ameaça os evangélicos estão fazendo com relação a tais grupos? Estão invadindo seus espaços? Ameaçando seus líderes? Raptando seus fiéis? No que consistem tais ameaças? Na difusão de idéias que vão contra a teologia de tais grupos? Mas aí, não se estará novamente se cometendo uma incorreta ingerência religiosa que contraria o próprio estado Laico, tão apregoado por aí, caso se procure abafar a expressão religiosa dos evangélicos?

O fato é que, me espanta esta mentalidade de que determinados grupos devem ser tutelados. Se sua religião não tem sido boa o bastante para “segurar” os seus fiéis, deverão então tais grupos terem apoio estatal, caso Ivan Valente seja eleito prefeito (mas fiquemos atentos que o tema também está no programa de outros candidatos)?

Segundo Adam Smith (intelectual que entendia um pouco sobre economia e sobre a natureza humana também), todo ser humano vivia buscando sempre evoluir de um estado de menor felicidade para um de maior felicidade. Ora, se um fiel deixou um “culto de matriz africana” para um culto evangélico, é porque entendeu ser mais feliz assim, conforme testemunham centenas de convertidos todos os anos. Será que o estado deve tutelar tais pessoas, afirmando que religião elas devem escolher para serem mais felizes?

Eu acho de um erro muito grande querer associar absolutamente uma cultura a uma religião qualquer. Uma pessoa pode muito bem ter uma cultura afro, “cultuar” sua negritude, e ser protestante, católico, ou não ter religião nenhuma. Muitos se esquecem que mesmo o cristianismo tem uma certa matriz africana; ou se esquecem que boa parte dos pais da Igreja pertenciam ao norte da África, como Tertuliano, Cipriano e Agostinho? Além do que, talvez uma das mais antigas igrejas cristãs do mundo seja a Ortodoxa Etíope. E mesmo na mãe África, a religião que mais cresce, e sem apoio estatal de nenhuma espécie, é o cristianismo, seja protestante, seja católico. Além do que, sabemos que a maior religião com participação negra do país hoje é a vertente do protestantismo conhecida como "pentecostalismo", com centenas e centenas de pastores e obreiros com posição de destaque.

Portanto, não vejo absolutamente com bons olhos tal projeto administrativo, e, ao que me parece, está se tornando relativamente evidente o divórcio entre os evangélicos e os grupos de esquerda, depois de um longo namoro, mui provavelmente, equivocado...

[1] http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080920/not_imp245139,0.php acessado em 30/09/2008, às 23:33