domingo, 25 de janeiro de 2009

Bem aventurados os que choram

É estranho ouvir alguém dizer que feliz é quem chora. Geralmente, na ordem natural das coisas, estamos acostumados a ouvir por aí que, feliz é quem está alegre, sorridente, jubiloso. Mas, estranhamente, a segunda bem aventurança que Jesus nos dá é a de que, os felizes são os que choram.

Quando li os comentários do Sermão da Montanha do Dr. Lloyd Jones, ele ensinou que existe uma lógica para a ordem das bem aventuranças, ou seja, elas não estão colocadas aleatoriamente. Portanto, o choro seria uma decorrência natural daqueles que se tornaram humildes de espírito. Neste sentido, a primeira bem aventurança seria a porta de entrada para o Reino, para uma comunhão mais profunda com Deus, uma vez que o fiel reconhece que o seu caminho não era necessariamente de Cristo, e tal constatação leva ao choro, às lágrimas. Mas tais lágrimas, seriam, certamente, as lágrimas do encontro com Cristo, do reencontro com o seu Criador, por isso, o fiel se torna feliz.

Foi também de Lloyd Jones que ouvi que alguns discutem se nas igrejas deve ou não haver mensagens evangelísticas, ou se estas devem estar restritas à atividade dos fiéis fora dos muros da igreja. Sem entrar no mérito desta discussão, lembro-me que o autor defendia a tese de que, era necessário, periodicamente, uma mensagem que nos dissesse sobre a obra de Jesus por nós, pecadores. E que, se ouvirmos tudo o quanto Jesus fez pela humanidade, e ainda assim, não derramarmos nenhuma lágrima, quão doente deve estar a nossa alma.

A vida cristã é uma vida que nos emociona. Lembro-me de alguns antigos padres, salvo melhor juízo, Simeão, o Novo Teólogo, em que se preconizava um certo “dom das lágrimas”. Só estaria realmente purificado de todos os pecados aquele que atingisse este estado, em que a alma chorava pela profunda ação do Espírito do Senhor em seu ser. E a alma, neste estado de choro, por assim dizer, estava muito mais propensa à Deus, e muito mais desejosa de se abster do pecado como que a um veneno mortal. É porque, neste estado profundo da alma, de choro, também se esconde um tesouro de uma profunda alegria, culminando na comunhão absoluta da alma com Deus.

Em nossas orações, portanto, deveríamos sempre chorar os nossos pecados. Por isso, nas antigas liturgias, sejam católicas ou protestantes, logo no início da celebração há um certo momento de contrição, que infelizmente, são muitas vezes feitas mais de forma automática. Nas missas costuma-se cantar Kyrie Eleison, e em cultos tradicionais, como na Igreja Presbiteriana e Metodista, se lê uma passagem bíblica em que exorta os fiéis a confessarem e chorarem os seus pecados a Deus. Todos os dias devemos suplicar a purificação de nossos corações.

Além do choro pelos nossos pecados, choramos com Cristo a situação de dor em que se encontra o mundo. Os ensinos do nosso Senhor são relativamente simples. Não digo dos aspectos dogmáticos do cristianismo, mas sim as leis de convivência e de amor. Muitos outros também ensinaram coisas parecidas. Mas a humanidade, por algum motivo pernicioso, tem o dom de afastar a felicidade e abraçar o erro, a dor, a destruição, a banalidade. E assim como Cristo chorou, a exemplo da galinha que tentou reunir os seus pintinhos, mas os filhos de Jerusalém não quiseram, assim também, nós choramos a dor dos que também rejeitam o caminho da paz e do amor e transformam o mundo em um lugar impossível para a comunhão. Quanta dor há no mundo, e por vezes, só nos é possível orar e chorar. Mesmo dentro de nossas casas, dentro do nosso lar, em nossas comunidades, bairros, famílias, e igrejas. Quanta dor. Somos convidados a nos associarmos a dor de Cristo e a dor de um Deus cuja Escritura diz chorar todos os dias.

As lágrimas então, vão nos preparando para o silêncio, para a tranqüilidade de coração, para a rejeição e para a ação. O silêncio de acolhermos a Deus dentro de nós, a tranqüilidade no sentido de sabermos que, temos a aprovação de Deus, pela sua misericórdia, e não por nossos próprios méritos. A rejeição do nosso egoísmo, do mal que parece querer surgir dentro de nós, e das forças da morte e das trevas que operam neste mundo. E para a ação, de amar, de compreender, de tentar contribuir para que haja um pouco mais de luz, um pouco mais de amor e compreensão ao nosso redor.

Bonhoeffer já disse certa vez que a presença de Deus é fraca no mundo, nós, os seus discípulos, somos ainda mais fracos, mas é justamente nesta fraqueza que seremos fortes, pois a fraqueza de Deus é mais forte do que a força do mundo. Não é a força dos que gritam, dos que ameaçam, dos que condenam, dos que empunham a arma, mas sim força dos que choram no mundo, por si mesmos e pelo mundo.