segunda-feira, 9 de março de 2009

Porque ressucitaremos?

Os gregos jamais cogitaram numa restauração ou esperança para o corpo do homem.

Antes criam que o sábio devia gradativamente, por meio de êxtases cada vez mais prolongados, desprender-se dele e aspirar pela morte, morte em que viam uma libertação para o princípio espiritual ou alma.

A vida se lhes assemelhava a um suplício e o corpo a uma espécie de verdugo ou ergástulo da alma...

Todo esse ódio que tributavam ao corpo tinha sua razão de ser no fato de que o corpo é uma substrato material.

Sendo constituido de matéria o corpo era necessariamente mau, mau porque a matéria de que é feito era considerada má.

O caso é que eles não atribuiam a origem da matéria a vontade do Supremo Ser, e sim a vontade de um demiurgo ou anjo caido que os sectários - dociteus, gnósticos, maniqueus, etc - identificaram com Belzebu ou Satanaz. Criam pois que este mundo físico e material fora feito pela potência maligna, sendo mau em si mesmo e irremissivel.

A missão de Cristo consistia pois, segundo criam, em redimir ou salvar a alma da tirânia exercida pelo corpo material ou físico.

Por isso empregavam sempre, como marca sua, a expressão salvação da alma, e jamais salvação do homem. Porquanto para eles o corpo que se nutria de matéria não podia aspirar a salvação.

Logo, todas as heresias engendradas pelo pensamento grego notabilizaram-se por regeitar o dogma da ressurreição dos mortos, afirmando que a alma ressurgia apenas metaforicamente, no momento em que recebia a luz da verdade divina...

Já o apóstolo tendo em mira a esses reducionistas exclamara> Se Cristo ressucitou dos mortos também nós que nele morremos com ele haveremos de ressucitar.

Posteriormente Atenagoras de Atenas e com ele muitos outros de nossos padres Teoforos julgaram por bem afirmar em alto e bom som o dogma da ressurreição final e vindica-lo perante as seitas e ideologias 'espiritualizantes'...

Conforme muitos encaravam a doutrina da ressurreição como uma concepção materialista de vida eterna...

Esses críticos não perceberam ou não quizeram perceber que a ressurreição não se opõe a imortalidade da alma, antes completa-a restaurando o homem todo. Não perceberam ou não quizeram perceber que ela não implica e que jamais implicou em negar a sobrevivência da alma, separadamente durante o estado intermediário, que vai da morte a ressurreição, mas em acrescentar a alma viva um corpo vivivecido...


Nossa concepção de vida eterna não é pois materialista enquanto não regeitamos nem a existência da alma, nem sua sobrevivência post mortem, mas humana e integralmente humana enquanto postulamos a eternidade feliz tanto para a alma quanto para o corpo, enfim para o homem todo e não para uma parte dele apenas, supostamente admitida como sendo mais nobre ou superior.

Afinal toda idéia santa que o homem concebe na alma converte-se em obra santa por meio do corpo glorificando ao Deus coporificado Jesus Cristo nosso bem.

Nós porém não reconhecemos outro ser além de Deus, como potência e lei agindo sobre a matéria e conduzindo-o a perfeição.

Alias não reconhecemos nenhum princípio junto de Deus ou que rivalize com ele pois não somos zoroastrianos ou dualistas.

Tampouco atribuimos a maldade uma existência positiva que se possa personalizar. O mal não possui existência substâncial ou real, mas existe apenas como oposição volitiva a Deus ou como ausência do bem que é a adesão a sua vontade.

Por isso cremos que a matéria corresponde a vontade positiva de Deus tendo em vista a aparição da vida biologica e enfim da vida psiquica capaz de participar das inimaginaveis riquezas de seu Ser e de progredir de glória em glória té chegar a perfeição e a sublimidade. Cremos pois que Deus é o autor e motor dessa escalada evolutiva que vai do atomo ao pensamento e a idéia moral de caridade.

Tendo Deus se encarnado com o objetivo de religar o homem a si e de chama-lo mais uma vez ainda a esse estado sublime de perfeição para que foi concebido, morreu e ressucitou. Morreu como todos morremos e ficou sua alma separada do corpo por algum tempo, para enfim ressucitar glorioso como imagem daqueles que receberam a sua palavra e a puzeram em prática.

Nele já se efetivou a perfeição que ainda nos aguarda juntando-se a alma viva ao corpo ressurreto...

Durante a vida presente o homem não pode fruir duma felicidade plena, porquanto esta projetado para a morte e sabe que seu corpo e sua alma separar-se-ão...

Tampouco pode o espírito isento de carne experimentar uma felicidade que seja plena pois sabe que lhe falta algo e aspira por recobrar o que lhe falta, aguardando esperançosa o dia da ressurreição.

Sabe a alma que se salvou por meio de obras santas executadas por meio do corpo e que esse corpo que lhe serviu de instrumental e que com ela colaborou prontamente em toda piedade, deve também ele receber seu galardão!

No último dia somente será inaugurada a nova era de plena e perpétua falicidade porquanto somente nesse dia o homem será restaurado como um todo e premiado. Premiada a alma que creu e meditou nos sacros mistérios com temor e tremor e premiado o corpo que executou as aspirações da alma temeroza aliviando aos sofrimentos alheios e semeando a paz, a justiça e a misericórdia.

Devemos ressucitar forçosamente pois só assim seremos plenamente felizes. Por isso que a imortalidade descarnada é apenas um estádio e não o último termo da fé revelada pelo Senhor Jesus Cristo.

Devemos ressucitar necessariamente como Jesus nosso excelso modelo ressucitou. Por isso que a imortalidade descarnada não passa duma faze transitória tendo em vista um bem muito maior: a afirmação do homem como um todo...

Pela ressurreição a matéria concebida e santificada por Deus é divinizada no Pleroma e introduzida na eternidade bendita.

Diante do fato da ressurreição de Cristo em seu corpo de nossa carne e diante da promessa de ressurreição para todos os justos cumpridores dos mandamentos divino promulgados sob o monte, a corporeidade deve assumir um novo significado ou melhor reassumir o seu antigo siginificado na instituição Cristã, significado momentaneamente obscurecido pelas sutis influências do pensamento grego.


Já não se trata de confesar verbalmente um ressurgimento que jamais foi negado, mas de se tirar as devidas conclusões, tendo em vista esse mistério e de viver deacordo com elas. Pois não há no Cristianismo mistério do qual não possamos ou devamos sacar conclusões práticas para a vida diária.

Que lições práticas poderiamos tirar pois do mistério da ressurreição final?

Antes de tudo devemos parar de violar a natureza humana em sua integralidade postulando verbalmente a salvação da alma... O Cristão não é convocado para salvar almas, mas para salvar o homem todo ou melhor salva-lo no complemento do seu corpo pela mudança de suas ações e operações.

Lance-mos para longe de nós esta expressão gnóstica ou maniquéia tão cara aos místicos...

Nossa missão é resgatar o homem pelo qual Cristo se fez homem completo.

Não pode pois a salvação ignorar o corpo vivo ou relega-lo ao esquecimento. É a homens de carne e ossos, com necessidades primárias que fomos enviados e não a anjos ou seres privados de corpo.

Não posso salvar a alma de um homem abandonando seu corpo a miséria, Cristo jamais ensinou esse tipo farisaico de salvação!!!

Um grande adorador disse certa vez com toda propriedade: Não podes falar sobre os mistérios divinos a um faminto, antes deves dar-lhe um naco de pão ou um pouco de sopa... E este grande adorador escreveu aquele monumento que é a "Summa theologica". Obra sempre citada raramente lida...

Debalde se procurar inverter a natureza como foi disposta por seu Senhor, tal inversão só pode gerar revoltados, o farisaismo sempre gera revoltados...

Passa pois o problema da reabilitação da alma pelo problema da reabilitação do corpo seu irmão de caminhada.

Certamente que o homem não vive apenas de pão...

Vivesse apenas de pão e coito e não passaria dum animal como tantos outros, como o porco, o leão, o babuino, etc

Mas é homo e sapiens e como tal sua existência pede algo mais, pede alimentos doutra esfera, quiçá mais substantiosos...

Carece o homem ultrapassar o pão ingerido, entretanto - e Cristo ao cear que o diga! - NÃO PODE DISPENSAR ESTE PÃO E VIVER SEM ELE.

NÃO VIVE SÓ DE PÃO; MAS TAMBÉM NÃO VIVE SEM PÃO E JESUS NÃO DISSE QUE VIVE... DO CONTRÁRIO NÃO SERIA JESUS...

Jesus jamais afirmou que o homem vive de osmose ou de brisa, jamais negou as necessidades materiais do homem, como seus discipulos maniqueus...

Referiu-se apenas aos que ja tinham a barriga cheia e a dispensa garantida, convidando-os a ultrapassar o mundo dos sentidos...

Quão poucos porém no mundo atual teem o pão ou o alimento do corpo garantido para cogitar nos magnos problemas da eternidade... Enquanto ronca a barriga pedindo pão não há lugar para lucubrações metafisicas ou para teologizações...

Enquanto o corpo não for redimido pela posse das condições mínimas para o exercício duma vida digna, não há que se oferecer salvação para a alma.

Começemos pois resgatando esses corpos que haverão de ressucitar no último dia: dando pão a quem tem fome, água a quem tem sede, roupa a quem tem frio, bens a quem vive na miséria, etc
Saibamos partilhar com os corpos alheios os bens de que neste mundo somos meros administradores e não senhores ou possuidores.

Cada um dos bens que partilhamos com os outros por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo são talentos espirituais que ele colocou em nossas mãos e moeda com que se adquire a perfeição divina.

Sobretudo resgatemos esses corpos da escravidão e da morte condenando todo tipo de explorações e opressões impostas aos membros de Cristo pelo culto do lucro e do dinheiro.

Começe a proclamação do nosso Evangelho pela condenação da injustiça e da morte sob todas as formas, especialmente no terreno desumanizado da econômia sobre o qual não tem se refletido a face de Cristo Jesus.

Seja nosso Evangelho a condenação deste mundo rebelde a lei de Cristo que deseja num serviço a dois senhores...

Enquanto virmos um pobre, um miserável, um mendigo em terras Cristãs seja sabido que o verdadeiro Evangelho não foi anunciado e que a encarnação de Cristo não foi devidamente glorificada. Pois aquela carne batizada, carne de Cristo é e não podeis deixar a carne de Cristo na sarjeta ou dela mofar como os soldados no pretório.

É dito que somos todos membros de Cristo, mas como pode um membro ou um orgão querer matar de fome ou de frio ou outro orgão? Onde na natureza se ve tal monstruosidade...

Entretanto alguns membros que dizem pertencer a Cristo semeiam ódio e amargura nos corações alheios...

Não é aquele que é explorado pela tirânia e esmagado pela soberba que odeia, mas aquele que lho explora e esmaga, esse odeia primeiro e fomenta o ódio...

O ódio e a maldade não devem ser combatidos em seus efeitos e consequencias mas em suas causas ou raizes, ou seja: a atitude daqueles que põe cargas pesadas sobre os ombros alheios, mas que por nada neste mundo aceitariam suporta-las...

É necessário estancar a maldade em sua fonte, aqueles que exercem qualquer poder e que dele se utilizam para esmagar o direito e silenciar o fraco. Esse que age desta forma, inda que vá todos os Domingos lançar-se aos pés da cruz vivificante Cristão não é mas membro do anti-Cristo.

Não é o Cristianismo um sistema de ritual para ser praticado ou vivido apenas duas horas por semana aos Domingos. Triste religião esta religião dominical que só se concebe nas igrejas aos domingos...

Muitos perderam a noção de que a vida do Cristão deve ser um culto perpétuo a Cristo ou que todos os atos da vida do Cristão, executados em união com Cristo e na mentalidade de Cristo, são eminentemente sacros ou religiosos. No Cristianismo não há espaço para profanidades... nele tudo é santo: o respirar, o tomar alimento e até mesmo o excretar, pois nosso Deus se fez carne.

Há séculos os poderes constituidos e dominadores deste mundo vem tentando conter a mensagem do Evagelho e transforma-la numa espécie de calmante... Há séculos Cristo tem sido mutilado e reduzido... desejam reduzir o Cristianismo a um sistema meramente celeste, espiritual ou transcendente.

A imanência do Cristianismo, sua dimenssão material, sua tendência a encarnar-se na sociedade transformando-a sempre foi e sempre será uma ameaça aos servidores de Mamon...

Cristo todavia sempre vence e no dia em que cada um de nós antes de realizar qualquer ação cogitar sobre o que Jesus faria e como ele faria sua vitória será completa.

Não sua vitória seu triunfo não será imposto por anjos ou orações, mas pena conformidade de nossas consciências pessoais com os valores por ele enunciados: do bem, do verdadeiro e do belo; sobretudo por um ideal imorredouro de justiça!!!

Domingos Pardal Braz