segunda-feira, 13 de abril de 2009

Ela não exerceu fé...




Dos cerca de trinta e oito Dinamis e teratas (sinais e prodígios) obrados pelo Pedagogo divino, quase todos foram concedidos pela fé.

A Lídia disse: vai filha em paz pois tua fé te curou.
Ao cego que mendigava junto ao caminho disse igualmente: Tua fé te salvou
E ao leproso agradecido disse a mesma coisa...

Ao centurião disse: Conforme tua fé seja feito e a cananéia: Grande é tua fé...

A Marta perguntou: Crês nisto? E ela respondeu: Sim, Senhor eu creio que tu és o Logos de Deus e Redentor do mundo.

Sobre o povo de sua terra escreveu o evangelista que não fora galardoado com tantos sinais porque não podia exercer fé nele.

Foi pela fé que os apóstolos de Deus disseram ao aleijado junto a porta formosa: ouro e prata não te podemos dar, mas em nome de Jesus de Nazaré levanta e caminha...

Parece que tanto Jesus quanto seus apóstolos vinculavam o sobrenatural a fé.

Por isso que S Judas Lebeu foi capaz de erguer uma montanha com o dedo diante do grande Xá.

E que S Tomé pode transportar um imenso lenho diante do Rajá de Malipora.

E que S Pedro com o sinal da cruz derribou Simão, o mago dos ares, fazendo com que se espatifasse no chão.

Pelo poder da fé o Bemaventurado Paulo pode cegar a Elimas, o falso vidente e salvar Tecla da mão de Tamiride.

Pelo poder da fé S Justo, dito Barsabas; companheiro dos Apóstolos tragou veneno e permaneceu vivo.

E toda aquela geração que contemplou o Verbo eterno encetou milagres e portentos, conforme esta escrito: Aqueles que creram em mim executarão estas coisas...

Assim aquela grei abençoada, assistida pelo Espírito Santo, deu testemunho do Salvador por meio de sinais executados pela fé.

E sem fé os prodigios não aconteciam...

Entretanto, como toda regra parece ter uma excessão, também nos deparamos com uma excessão no terreno dos milagres, e no terreno dos milagres narrados no Evangelho e executados pelo Médico de nossas almas: Jesus, o filho da Virgem.

Reza a crônica divina dos atos do Salvador que estava ele entrando numa obscura Vila dos confins da Galiléia quando dela estava saindo um féretro.

O nome da Vila era Naim e Jesus se encontrava muito provavelmente junto a sua porta principal, junto a parte externa da muralha quando deparou-se com aquele triste cortejo...

Certamente as pessoas estavam todas vestidas de preto, cabisbaixas, aflitas... enquanto as carpideiras se descabelavam, batiam nas fauces e gritavam...

Todo cortejo funebre é triste pois significa que o mundo esta ficando um tanto mais pobre...

Aquele porém era de sobremodo triste...

Pois se tratava do féretro de um jovem e os sepultamentos dos jovens colhidos pela mão inexorável da morte na flor da idade são sempre mais tristes e dolorosos...

Pois significam a partida de alguém que ainda não viveu o sufuciente para aprender, para amar, para crescer como pessoa e desenvolver todas as suas potencialidades... Trata-se de alguém que não teve oportunidade, que não teve chance e que a bem da verdade não viveu...

Pois o jovem mais sonha e mais planeja do que vive, especialmente no interior, nas vilas e nos sertões em que o tempo demora tanto a passar sob o céu azulado... então vem, repentinamente a mão da morte e desfolha aquela jovem planta e despedaça aquele botão mal aberto...

E assim se vão os sonhos e as esperanças para a sepultura...

Não sabemos se aquele jovem morreu afogado no pequeno regato da Vila ao buscar alivio para o calor num dia de verão... ou se caiu duma árvore a qual subira para colher algum fruto... ou ainda se morrerá duma enfermidade qualquer, dessas que a medicina rústica daqueles tempos era impotente para debelar...

Não sabemos sequer se havia um regato nas proximidades da Vila ou um pomar e jamais o saberemos, mas sabemos que certo dia um jovem veio a morrer, que foi velado por seus parentes e amigos e que entre sentidos prantos era conduzido aquela que estava destinada a ser sua morada eterna e imperturbável.

Decerto estava envolvido por aromas e faixas de linho e um súdario cobria seu belo rosto... seu corpo hirto e frio era levado por uma espécie de padiola ou esquife sob os ombros de seus companheiros com os quais correrá e brincará por aqueles campos floridos.

Pois toda galiléia e judéia era como campos de flores...

Mas nosso jovem não mais podia contempla-las, pois seus olhos haviam se fechado para sempre...

Quiz todavia a fortuna que aquele féretro, o féretro daquele jovem cruza-se com o caminho daquele que retem em suas mãos as chaves do hades e do abismo, com o caminho daquele que no último dia ordenará a terra e ao mar que devolvam todos os corpos de todos os homens, com o caminho daquele que faz revivecer os ossos secos e que coloca o espírito vivo dentro do corpo de morte para ressucita-lo...

De fato aquele não era um féretro comum, desses que vemos todos os dias: de pais ou de mães, de avôs ou de avós idosos, ou de jovens que deixam após si uma dúzia de irmãos...

Não, meus queridos, não se tratava de um féretro ordinário como os demais, antes era o féretro de um moço novo como já dissemos, mas, registra o hagiógrafo: Filho único de mãe viúva!!!

Sim, meus queridos: filho único de mãe viúva, e sabeis o que isto significa?

Podeis aquilatar a dor duma mãe que perde um de seus numerosos filhos?

Dizem as infelizes que passaram por este doloroso transe que é como se um pedaço delas fosse retirado...

Não dúvido.

Antes creio.

Pois segundo a lei da natureza é aos filhos que cabe amparar os pais na velhice e conduzi-los a morada eterna!

Que um filho preceda seu pai na sepultura é anti-natural. Por isso que nos livros dos patriarcas dos hebreus esta escrito em forma de observação: Então pereceu ele, estando seu pai ainda vivo!

Coisa triste, pois o pai ou a mãe que perdeu um filho, a cada ano que passa poem-se a imaginar em como estaria o filho se não tivesse morrido: se casado, se feliz, se empregado, etc

E tais cogitações sem esperança constituem um verdadeiro tormento, a noite do coração o inverno da alma...

Talvez o coração despedaçado da pobre viúva fosse cogitando tudo isso e a cada passo em demanda do sepulcro sua alma ia sendo sepultada viva...

Pois esse filho não era um dentre vários, mas o único... não era substituivel mas insubstituivel em verdade...

Era sua única esperança e seu arrimo, seu maior tesouro e seu futuro, seu amparo e sua alegria...

Não cuidará dele com tanto carinho... não se esforçará tanto... não fizerá tantos sacríficios, como só as mães sabem fazer, para ve-lo ali, morto e enrijecido sobre um catafalco...

Já havia perdido seu esposo, talvez há pouco tempo e em circunstâncias trágicas, talvez picado por uma víbora, talvez surrado por bandidos, talvez nalguma guerra...

Ora perdia seu filho único, seu menino, seu bêbe cujas fraldas trocará e cujos primeiros passos ensaiará...

Eis que segue em demanda do sepulcro que a todos engole e jamais o tornará a ver...

Talvez venha a passar necessidades como tantas e tantas viúvas israelitas, talvez perca seu lar e seja lançada a sarjeta para morrer como uma indigente...

Sua vida esta como que virada de ponta a cabeça... essa mulher não tem fé, não tem esperanças, não cre em salvação alguma, só tem suas lágrimas e o coração despedaçado.

Por isso conduzida pelas amigas, em estado de choque, quase tendo uma síncope ela passa pelo Mestre e não lho reconhece!

Pois certamente não o conhecia...

Ele porém a conhecia desde os tempos eternos, como conhece a cada filho seu, a cada ser, a cada alma, a cada folha de sicomoro, a cada pardal, a cada ovelha...

Ele a conhecia e sabia o que estava dentro de seu coração!

Só ele conhecia as profundezas daquele mar de angustias, só ele era capaz de sondar a largueza daquela dor tão grande...

O filho morto não podia exercer fé, a mulher não exercerá fé, nenhum dos circunstantes se aproximará e intercederá por ela...

Entretanto ocorre a identificação...

Porque também ele Jesus é Filho único...

Porque sua mãe também é viúva...

Porque ele também haveria de perecer antes dela e de deixa-la só...

Porque ressucitando haveria de tornar aos céus...

Porque sua Mãe permaneceria desamparada até o dia do chamamento...

Porque a espada de dor anunciada por Simeão filho de Hilel atravessaria o coração desta Santa mulher.

Porque ela haveria de receber nos braços seu corpo inerte descido da cruz...

Porque haveria de ungi-lo e leva-lo ao sepulcro entre espasmos de dor...

Porque não restaria ninguém para consola-la...

Sim, certamente que Jesus pensou na dor daquela pobre viúva, mas pensou também na condição futura de sua querida mãe: viúva e privada de seu único Filho...

Então, diante de cena tão trágica e tão pungente que faz ele, Jesus?


"Vendo-a o Senhor, movido de compaixão para com ela, disse-lhe: Não chores!"


Primeiro vai ter com a pobre mulher e lhe conforta dizendo: Não chores...

Pois esta escrito no livro de Deus: Naquele dia enxugarei as lágrimas todas do meu povo!


E antes que ela replique: Senhor, meu filho...

"Aproximando-se, tocou no esquife, e os que o levavam pararam. Disse Jesus: Moço, eu te ordeno, levanta-te."


Desta vez não são os homens que tomam a iniciativa, mas o Senhor Dominador, o plasmador
dos mundos, aquele que em suas mãos tem o Poder Supremo...

Ele discretamente se aproxima - os circunstantes não entendem o que está acontecendo - para o cortejo, toca o defunto - o que era terminantemente proibido pelas leis dos judeus - e ordena que ele se levante...

Não houve sequer tempo para que alguém gargalha-se ou o chama-se de louco... Talvez houvesse tempo para pensar em faze-lo, entretanto:

Sentou-se o que estivera morto e começou a falar, e Jesus entregou-o à sua mãe.


De imediato aquele pobre moço se levanta, retorna do mundo espiritual sem nem saber o que se sucedera consigo, e assustado como quem retorna dum pesadelo poe-se a narrar coisas incompreensiveis...

Mas o trabalho ainda esta por ser terminado: pois Jesus toma o moço redivivo pela mão e o conduz a pobre viúva, dizendo: Toma minha mãe, o que é teu eu te devolvo e o que devolvo ninguém tira! Toma tua esperança, a luz dos teus olhos, a tua riqueza e a tua alegria, eu o Senhor da vida e da morte to entrego, segue em paz e dá glória a Deus pois com ele ainda haverás de viver muitos momentos de felicidade! Toma aquele que gerastes, nutristes e acalentastes: eu o trouxe do hades e to entrego!

As escrituras não nos revelam o que se sucedeu com a mulher, mas é fácil imaginar que se prostrou diante do Logos e banhou seus divinos pés com copiosas lágrimas...

Talvez tenha se convertido numa dessas mulheres reconhecidas que passaram a seguir e a servir o Senhor durante suas andanças pelos ínvios recantos da Palestina até o derradeiro dia...

E que lá estavam firmes aos pés da cruz enquanto os homens todos haviam debandado...

Talvez o moço se tenha feito predicante e tenha ido anunciar a boa nova em terras distantes...

Tenho para comigo que este milagre é superior a todos os outros milagres de Jesus. Pois todos os outros foram milagres da fé enquanto este é um milagre de amor, o milagre de amor.

E não posso le-lo sem ter os olhos sempre razos dagua...

Vós o podeis?