sexta-feira, 3 de abril de 2009

Reflexões sobre a fé e os dogmas.

Acabei de ler a exposição elaborada pelo Dr Seino a respeito dos dogmas.

Não aprecio exposições sobre dogmas porque as de hoje primam pela mediocridade e a indigência.

Confeso entretanto que apesar dos paragrafos enormes fui capaz de le-la com relativa facilidade.

Gosto de conhecer os pensamentos das pessoas que cultivam o espírito. Gosto de saber o que creem, porque creem, para que creem...

Gosto de contrapor e de debater.

Debates e dialogos há que engrandecem. Enquanto outros conduzem a chicana...

Em tempos passados me meti em diversas chicanas. Hoje me arrependo...

Hoje ouço pelo puro e simples prazer de ouvir. Digo as pessoas que sabem do que estão a falar.

Quanto as que falam, discursam e anunciam o que nem de longe conhecem, por essas continuo nutrindo o velho desprezo de sempre.

Odeio ouvir opinões ou arrivistas que sobre tudo dissertam e pregam sem conhecimento de causa.

Não creio que o homem se salve devido a sua ortodoxia, não creio que se salve por sua fé (subentenda-se fé somente e não fé viva) não creio sequer numa salvação mágica que se adquire num momento a hora da morte... Não creio em nada disto.

Creio na salvação pelo amor a Cristo e pelos irmãos, pela imitação de Cristo e serviço fraterno. No fim das contas creio e confeso a salvação pelas obras enquanto indice visivel da operação da graça invisivel.

Diviso a graça onde há obras: justiça, amor, bondade, generosidade, etc Onde a ódio, injustiça, maldade, mesquinhez, etc não posso divisar a graça pois lha respeito como algo divino.

Creio pois na salvação como processo, como uma caminhada, como uma evolução ou progresso da alma na sendo do bem e da virtude...

Como o velho Montalverne desconfio muito das conversões mágicas de última hora... geralmente vive o homem como morreu apesar se seus derradeiros protestos.

Quem não soube viver com Cristo como haverá de morrer com ele?

Lembra-te de Dimas...

Já sei, já sei o Bom ladrão...

Dimas era hebreu... que os hebreus e muçulmanos se entreguem a Cristo e desejem servi-lo em seus momentos finais vá lá...

Que Cristãos desejem viver como Dimas...

Os Cristãos devem viver como Paulo.

"Sêde meus imitadores..." disse ele. E não imitadores de um criminoso...

Pois se o Dimas agonizante se fez Cristão o Dimas criminoso era judeu, estava pois fora do meio Cristão.

No meio Cristão não há espaço para violadores do Decalogo. A graça creio eu, poderosa é para servir a boa vontade.

Cremos pois numa graça forte, que nos capacita a não pecar e a ofender o Logos que habita em nós.

Bem, dentro deste quadro geral há um espaço reservado para a fé ortodoxa...

Disse fé e não moral porque não creio na infalibilidade moral da igreja.

Creio numa moral ortodoxa sim, mas deduzida do Evangelho e da tradição... moral que a igreja nem sempre tem observado.

Embora não admita que a fé ortodoxa ou correta seja o elemento essencial do Cristianismo, ou um elemento mágico que produza uma salvação, nem por isso regeito-a como coisa inutil e vã. Antes reconheço sua grande importância... ao menos para mim é importante saber de modo claro, conciso e objetivo o que devo crer, não para salvar-me mas para viver e sobretudo para deleitar-me.

Pois o Cristianismo é Deus se apresentando ou revelando ao homem... uma revelação a um tempo espiritual através da qual Deus nos fala de sua natureza divina e de seu reino e a um tempo moral através da qual Deus nos fala de sua vontade ou seja de como quer que vivamos para que nos unamos a sí.

Ora não posso admitir que o dado ou a informação mais humilde pertinente a essa revelação divina possa ser obscurecido ou velado sem prejuizo para nossas almas... creio que cada ponto da revelação divina tem um significado vital para a alma humana então não posso admitir que haja confusão ou incerteza a respeito deles.

Caso não pudesse conhecer segura ou infalivelmente por intermédio da igreja apostólica tudo quanto Jesus ensinou sobre si e sobre o seu Reino sentir-me-ia desolado ou melhor mutilado em meu cárater Cristão.

Por isso - tendo em vista a relevâncida da revelação divina (para o aprimoramento humano) - estou persuadido de que a Igreja foi comissionada com o objetivo de custodiar os dados da revelação e de entrega-los imaculadamente a cada geração por obra e graça do Espírito Santo, peço vênia aos protestantes cujos sentimentos respeito, mas não creio num Espirito que reforma mas num Espírito que guarda e conserva.

Creio que tudo quanto é ensinado por todos os Bispos ortodoxos, sucessores dos apóstolos é dogma de fé. Creio pois no magistério infalivel do episcopado ortodoxo.

Creio ainda na perfeita integridade do Símbolo, nos elementos comuns pertencentes as profissões de fé dos hierarcas Pedro Moguila e Dossiteus e sobretudo nos concílios gerais.

Aceito todas essas vias fundamentadas na tradição apostólica como normativas em matéria de fé e a elas me submento com toda reverência e piedade aceitando cada ponto e cada artigo.

Entretanto repudio ao exclusivismo como doutrina expuria e vã.

A ortodoxia não pode ser e de fato não é uma exigência tendo em vista a união do homem com Cristo...

Cristo não exige dos seus que assinem um formulário de fé a guiza de passaporte para o céu.

Aquele que amar o Cristo saberá amar o que ele ensinou e por ele buscará a verdade.

Ora quem morre procurando a Cristo ou a verdade que dele procede já a encontrou.

De minha parte não encontro dificuldade alguma em crer num único e irrepetivel parto virginal de ser humano se este ser é de fato um ser divino...

Se admito a Encarnação de Deus não há por assim dizer o que eu não possa admitir...

Pois se Deus se torna homem Deus pode nascer de Virgem.

Por outro lado se não é capaz de nascer de Virgem como pode sendo Deus tornar-se homem?

Porque um Deus se tornar homem é milagre muito mais estupendo que um homem nascer de Virgem.

Sejamos francos o Cristianismo - me refiro ao Cristianismo e não a organizações fundamentalistas - não exige de ninguém que creia ser possivel a uma Virgem conceber e parir nos dias de hoje ou que Virgens possam conceber e parir a todo momento ou a ainda que admitam a possibilidade de qualquer milagres hoje.

Pode o Cristão ser deista - e eu com todo orgulho confeso que o sou - e dizer em alto e bom som que atualmente não acontecem mais milagres e que os milagres são por assim dizer impossiveis de virem a acontecer.

Basta aceitar aqueles milagres que o Novo Testamento atribuiu a Jesus Cristo.

Ora aquele que Cre na divindade de Cristo não ousará duvidar de seus milagres.

Outros milagres são totalmente desnecessarios e não exigem fé.

Com quem não cre na divindade de Cristo não temos o que discutir.

Quantos aos que afirmam que o Verbo encarnado era incapaz de realizar milagres só nos resta morrer de rir...

O que teria dificuldade em crer e jamais poderia aceitar são as narrativas monstruosas do antigo testamento como o Criacionismo, o Dilúvio, a estória dos anjos tarados, as façanhas de Moisés, a saga de Jonas, etc

Que os fundamentalistas apresentem tais fábulas como parte da revelação Cristã ou como artigos de fé e regeitem ao mesmo tempo a Virgindade perpétua daquela que gerou a Deus, isto sim me escandaliza...

No que diz respeito a teologia e as especulações a atitude do romanismo, que canoniza tais especulações ex catedra, também me escandaliza. Seus teologos afirmam que se trata do progresso ou da evolução dos dogmas, julgo que se trata de pura e simples alteração ou melhor de pura e simples corrupção da fé.

A mania de se dogmatizar sobre teologias é sumamente destrutiva...

Grosso modo apenas a profisão singela e correta da fé é necessária ao Cristão. A teologia no frigir dos ovos é supérflua.

Tertuliano soube dize-lo muito bem no momento mesmo em que ela - a teologia - fazia suas primeiras aparições na igreja.

Quero dizer que não é necessário estudar teologia ou ser teologo para que a alma se nutra de Cristo e nele cresça. Pelo contrário, como assinalou o Dr Seino, a teologia e as discusões que se entretecem em torno dela já fizeram muito sangue rolar e escandalizaram muita gente...

Não, nós não negamos a utilidade da teologia, da sã teologia. Tentativa sempre louvavel de se racionalizar ou compreender a fé.

O que repudiamos é a tentativa infeliz de monopoliza-la ou de canoniza-la. Na verdade não existe uma teologia ortodoxa mas teologias ou escolas teologicas todas dignas do mesmo respeito... pois as soluções teologicas são teorias ou opiniões abalizadas e não artigos de fé.

Revelação é uma coisa e teologia outra. A revelação e seus artigos procedem do Salvador... a teologia dos homens, piedosos sem dúvida mas limitados e faliveis.

Resta por fim considerar o mistério ou o que é por assim dizer irredutivel a toda e qualquer teologia.

A meu ver tanto romanos quanto protestantes multiplicam os mistérios...

Os primeiros afirmando a transubstanciação ou seja a presença MATERIAL do corpo inteiro de Jesus no sacramento...

E os outros afirmando a predestinação...

Creio que os únicos mistérios genuinamente Cristãos sejam a Trindade divina e a encarnação.

Examinando a Trindade nos deparamos com o problema insoluvel do uno e infinito ser fruido por três consciências ou pessoas sem que haja partição (divisão). Ora nós só podemos conceber fruição simultanea por partição...

Resta-nos apenas e tão somente admitir que se trata dum mistério supra racional ou que está acima de nossas faculdades racionais. Nossa mentalidade só pode compreender e assimilar a nivel de categorias humanas ou deste universo e tais categorias não se aplicam a divindade que esta para além do universo...

Nossas categorias de pensamento são inadequadas, inapropriadas e insuficientes para esgotar o Supremo Ser, forma de existência infinitamente acima da nossa. Nosso continente não comporta tal conteúdo.

O mesmo se sucede com a Encarnação de Deus...

Como apenas a pessoa do Filho pode encarnar-se se as pessoas de Trindade são inseparáveis?

Como a única natureza sendo infinita e ilimitada pode ser contida pela natureza humana?

Repete-se o mesmo dilema...

E diante dele só há duas respostas ou atitudes possiveis: ou reconhecemos a condição limitada do nosso aparelho cognitivo e recebemos tais artigos ou regeita-mo-los como fábulas contraditas pela razão...

Eis a diferença entre o crente e o racionalista...

O crente tendo credenciais e garantias crê, mesmo nos mistérios.

O racionalista se escandaliza dos mistérios e se recusa a crer.

O judaismo e Islamismo formas religiosas anti-trinitárias e contrárias a tése da encarnação não comportam mistério algum...

O Cristianismo já em seu ponto de partida que é a concepção de Deus se aparta delas e assume o mistério.

Assim o Deus Cristão não será apenas uno quanto a natureza, mas também trino quanto as formas de consciência ou pessoas que nela subsistem e tampouco será transcendente apenas mas também imanente ou encarnado. Recebe pois o Cristianismo tanto a pluralidade como a imanencia em sua profissão de fé e tais conceitos comportam toda uma vida espiritual ampla, rica e abrangente.