domingo, 10 de maio de 2009

Deus é mãe

Por Sérgio Presta


Todos nós aprendemos, desde criança a chamar Deus de Pai; além disso, o próprio Cristo nos ensinou a orar dizendo “Pai nosso...”, e que sempre que tratamos a respeito de Deus o fazemos considerando-o um ser masculino. Porém, essa inclinação para considerar Deus um ser masculino se deve tão somente às limitações de nossas ferramentas lingüísticas. Isso acontece, porque a linguagem humana foi feita para tratar das coisas que estão balizadas pelo ser humano.



É por isso que ao dizermos que Deus é Pai, estamos nos valendo de um termo das relações humanas para descrever uma relação não exclusivamente humana. Quando confessamos a paternidade divina estamos afirmando que, como faz um pai, Deus cuida de nós, supre as nossas necessidades, deseja o melhor para as nossas vidas etc.



Mesmo assim, até pela comemoração do dia das mães, quero convidar você a pensar em Deus como Mãe. A firmação que Deus é mãe não representa, segundo o meu ponto de vista, nenhuma heresia; na devemos ver que o Deus é Mãe porque Ele é excessivamente acolhedor, tem seio largo, cheiro de flor, tem colo aconchegante. No olhar do Deus Mãe, não pode ser percebido qualquer juízo de valor ou condenação; mas, sempre vamos encontrar ternura.



E, indo na direção inversa do que muitos possam pensar, não há nenhuma originalidade nesta afirmação. Atreves das palavras do profeta Isaias Deus nos pergunta: “pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do fruto do seu ventre?”, e a resposta é clara, NÃO! Então ele continua: “Mas ainda que esta viesse a esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti” (Is 49,15).



Diante dos questionamentos e das afirmações acima, vemos que desde o século VIII a.C. já se afirma que Deus é uma mãe zelosa, que não descuida nem um só minuto dos seus filhos, que está visceralmente ligada a eles e os nutrem com as suas entranhas. Isso que dizer que todos nós fomos entretecidos através do amor de Deus; deste amor nós emergimos para a vida e por esse amor fomos alimentados para que pudéssemos realizar maravilhas em futuro próximo.



A comparação não para por ai, é nos braços de Deus, e somente neles, que cada um de nós ensaiou os primeiros e incertos passos para a construção de um mundo melhor e, mesmo agora, dentre todos os lugares onde, através do nosso livre arbítrio podemos estar, não há onde nos sintamos tão seguros e tão “em casa” como no regaço de Deus.



Diante dessa fantástica constatação, não há como negar que Deus espera que possamos viver em amor, e a conseqüência imediata dessa nova forma de ver o mundo e a imediata transformação da nossa vida, colocando Deus no lugar que é de direito: o centro da nossa existência.



Porém, alguns podem perguntar: como posso sentir esse amor maternal de Deus? É essencial procurar viver em harmonia com os princípios que foram por Ele estipulados para a nossa vida. Ou seja, devemos voltar para os braços do Deus Mãe, como ou para os braços do Pai, reconhecendo todo os nossos erros e falhas e com a humildade do filho pródigo descrito em Lucas 15,11-32.



Assim, não devemos esperar sermos bons para depois ir a Deus. Ele está dizendo que devemos buscá-Lo exatamente como estamos e, se permitirmos, Ele se encarrega de arrumar a nossa vida quando diz: “Vinde a Mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei” (Mt 11,28). Com isso podemos concluir que, mesmo que estejamos sem fé, sem condições, desesperados, rebeldes e sem vontade, se quisermos ouvir, poderemos nos voltar para Ele porque Ele nos chama nominalmente: “Voltai, ó filhos rebeldes, eu curarei as vossas rebeliões” (Jr 3,22). Até porque Deus nos chama, como uma mãe bondosa, somente porque Ele “amou o mundo de tal maneira que deu Seu Filho Unigênito para que todo aquele que n’Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).


(o autor é diacono da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, servindo atualmente na Paróquia de São João)