domingo, 21 de junho de 2009

Minha apologia ao bom protestantismo IV - os não conformistas


Embora não partilhe do pensamento estritamente anabatista, pois para mim a questão do pedobatismo é uma teolougumena ou adiafora, uma questão neutra ou puramente teológica, a honestidade me obriga a reconhecer os valores legitimamente cristãos apregoados pelo anabatismo emergente e pelos grupos afiliados.




Quando se diz que Marx ou seus interpretes russos, tal e qual os antigos zelotes, equivocaram-se no que diz respeito aos métodos ou meios de se modificar a estrutura social, advogando uma revolução material, física ou sangrenta, devemos ter em mente que o mesmo erro foi cometido pelo líder anabatista Th Muntzer.




Entretanto, se abstraimos do método - certamente oposto aquele culto da paz enunciado por Cristo (que o capitalismo não segue nem respeita mantendo a sociedade jugida a força de armas) - permenece de pé, tanto com relação a um quanto com relação a outro, que souberam perceber as incongruências duma sociedade que se apresentava como Cristã enquanto oprimia o homem, violava sua dignidade e impedia sua plena realização enquanto imagem de Deus ou pessoa. Isto Lutero não percebeu e menos ainda Calvino, permanecendo ambos no mesmo nivel de consciência que o papado romano.




Tento pior pois não souberam transcender o que pretendiam denunciar.




Muntzer como Marx três séculos depois, perceberam a escandalosa contradição duma sociedade Cristã cindida em classes rivais, e tomaram partido.




Equivocaram-se quanto ao método evidentemente --- e neste terreno estamos separados, tanto deles quanto desta sociedade hipócrita e farisaica, que condenando a violência presente na metodologia revolucionaria dos comunistas, se vale da mesma violência e força, para manter e reproduzir seus funestos erros --- mas não se equivocaram ao denunciar a contradição indesculpável e ao se postar ao lado dos pobres, humildes e oprimidos, imitando alias a conduta de Cristo.




Não disse o Senhor: Este evangelho é anunciado aos pobres.




Não disse que seu Evangelho era anunciado aos milionarios e poderosos pois sabia que eles creem apenas naquilo que veem e que são adoradores da matéria.




Por isso a mãe de Cristo vaticinou que esses fariseus hipócritas seriam derrubados de seus tronos...




Derrubados por meio de golpes?




Não derrubados pelo esclarecimento das consciências nimbadas pela graça de Cristo.




Tal esclarecimento fará muito melhor do que as baionetas e canhões varrendo duma vez para sempre toda a injustiça e iniquidade da face da terra.




Segundo o exemplo do nababo Zaqueu, o qual para por sua consciência ímpia deacordo com o arauto do amor, teve de distribuir aos pobres os frutos de todas as suas exações.




E assim logrou juntar um grande tesouro inesgotavel no lar perpétuo, a salvo da traça, do cumpim e da ferrugem...




Porque se permanecesse apegado aos bens pereciveis deste século, teria sido apartado de Cristo, como aquele Finéias sobre o qual esta escrito que tendo ignorado ao mendigo Lazaro foi lançado a geena de fogo.




Este fogo representa o estado de sofrimento espiritual, sofrimento terrivel, das almas mesquinhas que saem deste mundo apartadas do Verbo da vida e prezas aos bens materiais.




Porque tais bens só são verdadeiros bens na medida em que servem ao propósito do Evangelho e da graça que é a caridade. Na medida em que correspondem ao egoismo e a iniquidade não são verdadeiros bens, mas bens ilusórios ou melhor autênticos males.




Muntzer tinha pleno conhecimento de tais verdades e sobre a condição deplorável em que viviam os campônios alemães a seu tempo - e que a posição se Lutero e o jugo de sua organização erastiana só fez agravar (cf Janssen 'História do povo alemão na Idade média) - tratados como animais pelos nobres papistas - os quais na verdade apenas afetavam papismo sendo na verdade escravos da matéria - e por seus confrades passados ao luteranismo. Separados pela fé, porfiavam-se uns e outros em oprimir mais a seus súditos e pela crueldade permaneciam unidos e irmanados.




Entretanto quando Lutero poz o Evangelho na mão dos simples sucedeu-se um curioso fenômeno: impossibilitados - por suas limitações e falta de preparo - de captar o verdadeiro sentido teórico ou doutrinal da divina revelação foram perfeitamente capazes de compreender o seu aspecto ético ou moral. E assim ainda de sucede hoje, conforme o homem iludido por sua própria ignorância é capaz de errar em diversos pontos no que diz respeito a teoria ou a doutrina, sem embargo, mas dificilmente errara em matéria de justiça e de virtude a menos que siga as tradições humanas dos teologos de gabinete, de Lutero, Calvino, etc




Caso tome a decisão de procurar o significado ético ou moral desses quatro relatos sem fazer caso do que lhe diz o paróco ou o pastor, percebera logo que a sociedade em que vive é cristã apenas até que ou até certo ponto, Cristã de lingua ou de boa, cristã de fé ou teoria, mas não Cristã de fato pela prática dos valores inculcados pelo Santo Evangelho a começar pela estrita justiça, passando pela compaixão e arrematando pela caridade.




Afinal que justiça há numa sociedade em que muitos não possuem absolutamente nada, ou seja, sequer o necessário para viver, enquanto outros vivem como se possuissem o mundo em sua inteireza. Refiro-me as palafitas e cortiços dum lado e aos proprietários de dezenas ou centenas de imóveis ou acres de terra do outro...




Que justiça há numa sociedade em que os incolas foram expulsos de suas terras e os africanos sequestrados e escravizados por três séculos cominando tais crimes na acumulação de um capital que os levianos e mentirosos atribuem ao trabalho duro dos colonizadores... mas que trabalho duro foi este alem de segurar o arcabuz ou vibrar o chicote?




Que justiça pode haver numa sociedade que ainda hoje não foi capaz de absorver, de incluir e de dar oportunidades iguais a essas maiorias raciais oprimidas por uma força arquisecular? Que justiça há em se torcer o nariz quando se fala em cotas para índios, africanos e nordestinos visando inclui-los na dinânica social e reparar de alguma forma as injustiças e atrocidades cometidas no passado?






Que compaixão há ou houve numa sociedade que a menos de cinquenta anos torturou mulheres grávidas apenas e tão somente porque suas opiniões no que diz respeito a organização social eram incompativeis com os intereses, forças e poderes do econômico? E que compaixão ou respeito há em referir-se a essa fase tenebrosa de nossa história como 'ditabranda'?




Branda para aqueles que não foram perseguidos, humilhados e torturados é claro...




Entretanto não existe tortura branda ou meia tortura e as pessoas que cunham expressões como estas testificam publicamente o quanto suas almas foram desfiguradas pelo econômico...




Que compaixão ou coerência há nesses Cristãos - ortodoxos inclusive - que sentem saudades de Joseph McCarthy?




Ou que tecem apologias a Torquemada e Calvino justificando cinicamente seus crimes e compatibilizando tais monstros com a verdade. Sem perceber que assim agindo ultrajam a verdade.




E a caridade onde esta ou onde fica?


Em remeter grevistas as galés como postulava o 'devoto' McCarthy?


Em executar friamente a um lider político legitimamente eleito como Salvador Allende?


Em frustrar as esperanças de milhares de mães como aqueles que costumam se reunir na plaza de mayo?


Não encontro exemplos de tal caridade no Santo livro...





Debalde a pseudo Cristandade injuriada clama: os comunistas também mataram, torturaram, cometeram injustiças, etc


Acontece, Cristão indiginado, que os comunistas não são Cristãos e que os valores deles não são os nossos.


Quando o comunista peca contra a paz e o amor age conforme lhe é próprio e segundo sua natureza.


Já o Cristão quando age do mesmo modo que o comunista merece ser chamado de fariseu hipócrita, traidor, impio e apóstata, pois age de modo oposto a seus principios, aos principios consignados na palavra de Deus pura e perfeita que é o Evangelho.


Alias, se o Cristianismo ao invés de calar a boca e de passar suas mãos na cabeça da Hidra lha houvesse decepado não haveria comunismo algum.


Se há comunismo é porque a sociedade Cristã não cumpriu com seus deveres, foi relapsa e permitiu a construção de um sistema econômico materialista e anti-cristão debaixo mesmo de suas barbas.


A Cristandade não se indignou quando devia...


Quando Indios foram assassinados no Oeste ela não se indignou, quando os negros eram apressados em tumberos não se indignou, quando os margraves oprimiam os camponezes não se indignou, quando os operários das minas de sua magestade brutânica clamavam por pão não se indignou, quando eclodiu a primeira grande guerra não se indignou, quando bombas atômicas foram lançadas sobre milhares de civis inocentes não se indignou, perante o apartheid não se indignou, diante de Sabra e Chatilla não se indignou...


Almas excepcionais como Las Casa, Benci, Colenso, Bonhoeffer e Desmond Tutu, se indignaram certamente. Mas elas não são a Cristandade...


Os papas romanos por vezes se comoveram, alguns sínodos e conferências preponderantemente anabatistas, metodistas ou anglicanos se comoveram e denunciaram, entretanto McIntire e milhões e milhões como ele ou permeneceram de joelhos orando diante de seus livros ou aprovaram todas estas situações de injustiça apelando a Abraão, Moisés, Caleb, David ou qualquer outro estrupicio do testamento velho e abolido.


Entretanto McIntire e sua Cristandade souberam indignar-se ao menos em duas ocasiões: em 1917, quando foi apregoada entre os ianques e seus aliados uma Santa Cruzada contra o bolchevismo e em 1789 quando os aliados decidiram invadir a França e sufocar a grande revolução...


E quem eram aqueles que formavam tais batalhões reacionários cujo fim era suprimir os direitos do homem ou seua real implementação?


Majoritamente homem se fé e oração. Gente de Igreja de missa, culto, comunhão e benção os quais acreditavam que sustando tais revoluções lutavam, matavam e torturavam em submissão aquele que disse: amai-vos uns aos outros e bemaventurados os pacificos.


A contradição salta a vista e revolta: O cristão não pode empregar a força contra uma situação iniqua que se opõe aos valores estampados no Evangelho, entretanto recorrer a força com o objetivo de manter o status quo ou a desordem estabelecida não se opõe ao mesmo Evangelho, antes glorifica-o!


Eis a manobra desfeita e revelada: Revolução socialista não pode, mas resistência capitalista ou contra revolução não só pode como deve...


Ou seja a paz e o amor só valem para um dos lados e justamente para o lado que não é Cristão...


O lado cristão pode empregar métodos pagãos para manter seu 'modus vivendi' - não direi pagão por respeito a Sócrates - iniquo e irracional.


Parece que vejo os manes de Lutero saindo da tumba e dizendo aos Nobres:


"COMO, POIS, OS CAMPONESES ESTÃO MALDITOS DE DEUS DE DOS HOMENS, SÃO INUMERAS VEZES RÉUS DE MORTE NO CORPO E NA ALMA, ISENTOS DE TODO E QUALQUER DIREITO, SÓ LHES RESTA ESBRAVEJAR...


ASSIM AQUELE QUE É ABATIDO AO LADO DA AUTORIDADE É VERDADEIRO MARTIR AO LADO DE DEUS, SE LUTAR COM TAL ESPÍRITO... EM COMPENSAÇÃO QUEM MORRE AO LADO DOS CAMPONEZES É COMBUSTIVEL DO INFERNO, POIS ELE EMPUNHA A ESPADA CONTRA A PALAVRA DE DEUS QUE É OBEDIÊNCIA E É POIS MEMBRO DO DIABO.

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POIS, CAROS SENHORES, LIVRAI AQUI, SALVAI AQUI, AUXILIAI AQUI E TENDE COMPAIXÃO DESSE POVO: APUNHALAI, BATEI, ESTRANGULAI QUEM O PUDER...



FUJA DOS CAMPONESES COMO DO PRÓPRIO DIABO..." Contra as hordas salteadoras, Vozes, 2001



Se Lutero encara os camponezes como o Diabo a quem encarará como Deus?


Aqueles que lhe dão guarida contra o papado: os principes e nobres opressores e iniquos, foi a eles que Lutero se vendeu em troca e apoio e proteção destruindo as últimas esperanças dos caponezes, os quais a par ou para além duma reforma meramente teórica ou credal desejavam uma verdadeira raforma das obras e da organização social...


Entretanto para Lutero aquela reforma social que deveria corresponder a uma legitima reforma religiosa e coroa-la é uma reforma satanica.


Seu deus que lho defende e protege é a nobreza ou o poder insituido e Lutero lho adora como os antigos hebreus adoraram a Apis.


Muntzer e outros adeptos do anabatismo entretanto souberam compadecer-se dos pobres camponezes, compreender sua revolta e apoia-los em suas mais do que justas revindicações.


O fim de tudo isto foi uma pavorosa revolução, meio religiosa, meio social em que os camponeses anabatistas foram derrotados e mortos com requintes de crueldades, dentre eles o próprio Muntzer do qual soube escarnecer Lutero...


Conforme o testemunho de Goethe a Alemanha converteu-se num açougue a céu aberto e segundo Zazius poucos tinham esperanças de sobreviver...


Não se sabe ao certo quantos camponezes pereceram mas o número é estimado em cerca de trinta mil.


Derrotados pelos nobres e traidos por seu ídolo, Lutero, onde puderam os campônios retornaram em massa ao papismo e assim a reforma perdeu toda a Aústria e o sul da Alemanhas onde o nome do reformador passou a ser tão execrado como o de Satanaz.


Nas regiões em que o luteranismo foi imposto pelo poder secular e que a igreja converteu-se numa repartição do estado a condição dos camponezes tornou-se ainda mais crítica do que durante a Idade média e nessas regiões o feudalismo só pôde ser abolido durante as invasões napoleônicas sob os auspícios da execrada revolução... Por isso que Napoleão foi descrito pelos pastores luteranos como sendo o anti Cristo ou a besta do apocalipse.


Cinquenta anos depois Marx ainda fazia memória do que tal religiosidade - a serviço do estado - representava e alcunhou-a como sendo o ópio do povo...


Entretanto noutras regiões, como Inglaterra e EUAN, o anabatismo continuou a prosperar, a resistir as pressões da ortodoxia protestante e a acobertar teorias e práticas bastante perigosas como o naturalismo, o universalismo, o pacifismo e diversas formas de socialismo, as quais teremos ocasião de abordar em nosso próximo artigo.