quarta-feira, 10 de junho de 2009

UM MODELO TRINITÁRIO DE VIDA


Cremos firmemente, com todo o cristianismo histórico, confirmado por Nicéia, preconizado pelos escritores neotestamentários, e ensinado por muitos dos chamados pais da Igreja, como Inácio, Irineu, Tertuliano, que nosso Deus é uma pluralidade de pessoas em uma mesma substãncia, ou seja, cremos na Santíssima Trindade. Um único Deus. Três Pessoas. Pai, Filho e Espírito Santo.



O monoteísmo dito radical, que não aceita esta pluralidade por temê-la como politeísmo, e que entende de algum modo Deus como uma entidade radicalmente única, preconiza, segundo o entendimento tradicional, a imagem de um Deus solitário, radicalmente (desculpe-nos a repetição do termo) só. Para nós, data vênia dos que entendem ao contrário, tal imagem não se coaduna muito bem com a imagem de um Deus de amor.




Isto porque, o amor, em sua plena potencialidade relacional, a nosso ver, só pode ser exercido e conhecido quando existente entre pessoas de uma igual natureza. Um Deus radicalmente só, um "totalmente outro" solitario jamais soube o que era amar um igual, e sequer soube o que é ser amado por um de mesma natureza. Talvez, por isso, tal Deus nunca seja visto como um Deus relacional. Tal geralmente é um Deus misericordioso, piedoso, no contexto de uma divindade sempre distante, mas nunca "um como o outro" pois jamais se relacionou com toda a expressão do seu ser com ninguém.




Por isso, não obstante as barbaridades que muitos cristãos cometeram durante a história, ainda é possível dizer "Deus é amor". Soa bem palavras como "Jesus te ama", "Deus te ama", porque, de algum modo, não obstante dois mil anos de desgastante história do cristianismo, a teologia soube firmar bem este conceito, e a figura história de Jesus de Nazaré (ou pelo menos o que temos dela) também muito contribuiu para isso. Tente aplicar o mesmo conceito para o monoteísmo de outras religiões, e parece, com o devido respeito que devemos a elas, não soar muito bem...




De qualquer modo, é possível dizer que Deus é amor, pois relaciona-se em uma comunidade trinitária, de mútuo amor e interdependência, uma comunidade que transpira o amor divino, e serve de modelo e de paradigma para todas as demais comunidades. Conforme já dito, uma divindade radicalmente solitária não pode gozar de tal comunhão divina. Esta questão de identificação para o amor é tão grande e tão cara a cristianismo que, para nós, um conceito fundamental em nossa teologia, é o da encarnação do Verbo divino, para que a humanidade fosse plenamente amada.




Assim sendo, o modelo trinitário é para nós o melhor modelo de vida comunitária que se possa pensar. É uma pluralidade de pessoas, mas também é um único Deus. Daí, começamos a entender um pouco melhor a conhecida oração sacerdotal de Jesus quando orava pedindo para que seus seguidores "fosse um" assim como ele, Jesus, era um como o Pai (João 17).




Tire o modelo trinitário do cristianismo e se estará atingindo em cheio o seu coração, pois não haverá mais nenhum outro modelo de unidade na diversidade como este, no meu sentir.




Mas voltando à oração sacerdotal, Jesus, na verdade, ora para que Deus nos dê esta capacidade para, não obstante sermos uma pluralidade de pessoas, sermos radicalmente um, assim como Ele, nosso Deus, também o é. Daí, o pastor Ariovaldo Ramos, em um livrinho seu sobre eclesiologia (Igreja, e eu com isso?) propor que a verdadeira imagem e semelhança de Deus na humanidade era esta capacidade de, apesar de sermos muitos, sermos também um, ou seja, uma verdadeira imagem e semelhança da Trindade. Por isso, que, na tradição judaico cristã, quando se diz que Deus criou o homem e a mulher, cita-se que foi uma única criação, e não duas criações, a ponto de homem e mulher serem, em um primeiro momento, serem chamados por um único nome! (Gen 5.2). Daqui, já podemos antever que, embora plural, a criação da humanidade é única.




Costumamos aprender em teologia que a Queda significa uma total derrocada em nosso ser por causa do ato do primeiro casal. Muito mais do que isso, a Queda vai representar uma perda de "koinonia", de comunhão, de harmonia, de unidade. O ser humano perdeu sua comunhão com o seu Criador, pois após seu ato, passa a se esconder, perde a unidade interior, pois se vê "nu", perde a comunhão com o seu conjuge, pois, a partir da queda, a mulher recebe outro nome e passa a gerar filhos em dor, perde a comunhão com a natureza, pois esta passa a produzir cardos e abrolhos, perde a comunhão com os animais, visto que, estes passam a temer aquele que será o seu maior predador, o homem!




Eis uma breve descrição das conseqüências do evento Queda. Não ignoramos que boa parte dos ditos pensadores modernos (entre eles, muito teólogos) jogaram Gênesis no lixo, trocando-o por uma nova cosmovisão. Mas será que podemos desprezar os efeitos de tudo o quanto ali está descrito, quando vemos que nossa condição existencial parece refletir profundamente tudo o quanto tal livro nos descreve? Não está hoje o ser humano tão distante de Deus e de comunhão íntima com o seu Criador, a ponto de ter que ficar freneticamente buscando um turbilhão de distrações, para não fazer uma profunda reflexão sobre sua própria condição existencial? E não é este mesmo ser humano neurótico que o tempo todo se percebe nu, incompleto, insatisfeito, que, se possibilidade e consciência tivesse, lotaria os consultórios dos modernos terapeutas em busca de ajuda? E não buscaria tal ajuda justamente por sentir-se sem nenhum amigo, um solitário em meio à multidão, pois vamos, a cada dia que passa, perdendo esta capacidade de, embora sermos muitos, estarmos intimamentes unidos? O que dizer então da natureza, violentamente depredada pela espécie humana; e dos animais, espécie após espécie sendo por nós, humanidade, extinta.




A Queda está presente, e faz parte de nossa vida, e ela implicou em derrocada da imagem trinitária em nossa existência.




Daí, quando dizermos que a Igreja existe para restaurar a imagem e semelhança de Deus na humanidade, ou melhor, em toda a criação, não seria justamente a restauração desta imagem trinitária, de plena harmonia e comunhão, não obstante a diversidade? Eis a missão dos cristãos. Eis a missão da Igreja. Tudo o que fuja disso, não pertece à obra cristã.




Esta vontade é tão querida por Deus e por Jesus, que, como já citado, na dita oração sacerdotal, ele roga para que "sejamos um", assim como Ele é "um com o Pai". Este é o foco da missão de Jesus. Resgatar para nos reconciliarmos com Deus e uns com os outros. Daí, na conhecida epístola de Paulo aos Efésios, estar escrito que a Igreja, que fora composta de dois povos que antes estavam separados, se tornara, em Cristo Jesus, "um novo homem" (2.15). Quem é, então, este novo homem? Paulo nos diz: dois povos, que na igreja, tornaram-se, não somente um único povo, mas um único homem! Ou seja, milhares e milhares de pessoas sendo um único homem em Cristo Jesus. Assim, na tradição cristã, Deus faz, em Cristo, convergir todas, exatamente todas as coisas. Há um sentido cristocêntrico em todas as coisas. Daí, a palavra, "não estar tão longe de nós". Esta é a verdadeira obra de restauração da imagem da Trindade na criação, ao ser derrubada a barreira de separação entre judeus e gentios, homens e mulheres, escravos e livres. E, mesmo a natureza, que geme, aguardando esta redenção, geme ansiosamente para a restauração de tal harmonia. Mesmo o profeta vétero testamentário vislumbrou que toda a arma seria convertida em instrumento de cultivo da terra, e que as crianças brincariam sossegadamente com os animais selvagens. Enfim, é para esta gloriosa missão que somos chamados no mundo! A restauração da verdadeira imagem e semelhança na humanidade, a restauração do modelo trinitário.




Por isso, a pertinência de tal modelo Trinitário. Um modelo de restauração da vida em comunhão, da vida comunitária., que o ser humano, que agora está em paz com Deus, passe a ter comunhão com os seus irmãos, em uma verdadeira unidade orgãncica e pneumatológica. O ser humano pleno, feliz, é aquele que ama e se sente amado verdadeiramente em uma comunidade de amor. É assim que se sentirá pleno. É assim que deveria ter sido, e que deverá ser. Dai, ser tão importante, em nossa vida cristã, contemplarmos, com os olhos da fé, a Santíssima Trindade, Trindade Bendita, para que nos inspire em nossa vocação.


Bendito

Seja Deus, Pai, Filho e Espírito Santo.

Como era no princípio, é agora, e será sempre, por todos os séculos.

Amém.


fonte da foto: http://picasaweb.google.com/lh/photo/GfhLxbu-xYFw0Yojuqo4JA