sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Até que ponto é preciso crer em dogmas?

ATÉ QUE PONTO É PRECISO CRER EM DOGMAS?


O que precisamos crer, no que realmente precisamos acreditar para sermos bons cristãos/?



Antes de iniciar esta reflexão, penso que é importante fazer a seguinte ponderação[1].

Tenho grande respeito pelos dogmas cristãos. Pelo credo apostólicos, pelo niceno-constantinapolitano, pelas Escrituras, pelos símbolos de fé, pelos sacramentos, bela beleza da iconografia dos ortodoxos, pela patrística, pela hinologia reformada, pel pentecostalismo, onde fui formado e criado; enfim, tudo o quanto configure esta fascinante história do cristianismo sobre a face da terra.

Tenho grande consideração pelas comunidades evangélicas, uma das quais alegremente pertenço, e que se reúnem ao redor do mundo com tremenda alegria e ardor comunitário, que comunicam sua mensagem ao através, muitas vezes, de comunidades alegres, cantantes, dançantes, etc.

Aprecio também a liturgia das chamadas Igrejas Católicas, seja da ala mais modernista, seja da ala mais tradicionalista, como as missas celebradas de costas pelos clérigos ortodoxos como na liturgia de São João Crisóstomo; seja a alegre liturgia anglicana com o Livro de Oração Comum e sua forma sóbria de celebração, seja a missa latina, como a que tive a oportunidade de presenciar no último natal. Consigo ver a beleza e o cuidado com que tais liturgias foram elaboradas.

Entretanto, penso que é justo, é honesto e é salutar que nos façamos esta pergunta: no que é preciso crer exatamente para ser aceito por Deus? Qual o tamanho do aracabouço dogmático e doutrinário que precisamos aceitar irremediavelmente para adentrarmos ás porteiras divinas?

Esta indagação vai no sentido de se questionar se seria realmente justo ou razoável que a Divindade estará às portas do céu a exigir dos que se achegarem aos seus portais, uma confissão “corretíssima” e “ortodoxíssima” de fé; caso contrário, para fora ficarão. Salvo melhor juízo, no catolicismo romano, por exemplo, existem mais de quarenta dogmas que precisam ser professados por aqueles que são daquela religião, e muitos destes dogmas, acompanhados de um solene anátema para os que não o aceitarem, como muitos dos elencados por Trento.

Mas pensemos por analogia.

Será que um tribunal comum, meramente humano, exigiria de alguém a confissão de um fato que não presenciou, e não pode se comprovar de modo algum? E, até que ponto, devemos desculpar na teologia aquilo que, geralmente não desculpamos em situações normais da existência?

Vejamos por exemplo, o credo niceno-constantinapolitano, em que se menciona a crença no nascimento virginal, o que a Igreja durante os séculos tem colocado para os seus fiéis como crença obrigatória, incorporando-a inclusive na sua liturgia.



E, por nós, homens, e para a nossa salvação,
desceu dos céus: e encarnou pelo Espírito Santo,
no seio da Virgem Maria, e se fez homem.




É razoável, para a mente humana atual, a certeza de que Virgens não concebem, nem dão a luz. Muitos poderão dizer que isto é um milagre, do qual deve ser crido somente pela fé. Entretanto, a própria natureza da palavra milagre nos indica um acontecimento espetacular da qual é razoável que a tal não se venha a acreditar, a não ser que se tenha uma base sólida para tanto. Mesmo atualmente a Igreja Romana, antes de declarar algum milagre, busca apoio científico para se eliminar todas as possíveis causas naturais para o fenômeno que se estuda. Estará tal Igreja disposta a utilizar todo este arsenal científico para analisar as próprias crenças que a tantos séculos professa? E no caso da referida confissão, só o temos o argumento de autoridade, que foi propagado por homens que também não presenciaram tal cena. E ainda, que por hipótese, tivessem presenciado, as futuras gerações que o sucederam não presenciaram, por isso, têm uma desculpa para duvidar. Sei que alguns poderão dizer que estou a fazer uma apologia de Tomé, que disse que só acreditaria vendo, e que citariam as palavras de Jesus que disse aos seus apóstolos “bem aventurado os que não viram e creram”. Entretanto, sem entrar em minúcias históricas, sabemos da possível rivalidade que provavelmente existia nas comunidades pré-católicas que produziram tais textos (a comunidade que escreveu o evangelho de João contra a comunidade que escreveu o evangelho de Tomé); e em segundo lugar, a aparente incredulidade de Tomé não lhe custou a rejeição do seu Senhor, mas sim a demonstração de sua veracidade, não obstante ter lhe custado a célebre frase: “bem aventurados os que não viram e creram”. De qualquer modo, Tome presenciou coisas que nenhum de nós presenciou (pelo menos, se tomados os acontecimentos nos evangelhos como literais), de modo que tem menos motivos para duvidar do que o homem moderno tem. Além do que, qual é o limite para tal tipo de argumentação, a de que bem aventurado é quem “não viu e creu”? Pode-se haver inúmeros abusos a partir desta sentença.

Por isso, talvez possamos pensar que não seja razoável exigir de alguém uma confissão de algo que nem mesmo foi presenciada por ninguém; isto em nível eclesiástico; e em relação a um possível juízo divino, perguntamos: será que a Divindade exigiria tal coisa? Na esfera de nossa existência, não costumamos a acreditar no que em alguém diz, somente pelo fato de ser uma autoridade ou alguém importante. Nem mesmo por uma idéia ser antiga, significa ser verdadeira (argumento da antiguidade). Nem mesmo o fato de um número muito grande de pessoas acreditara em alguma coisa, faz disso algo verdadeiro (argumento ad populum). Pelo menos, é isso que recomenda a cautela. Ainda mais, no exemplo do dogma mencionado, muitos entendem haver bons motivos para entender que talvez não seja o fato histórico em si, mas sim o discurso de algumas comunidades sobre a divindade em rivalidade com outras religiões. Isto porque, pipocam relatos de nascimento virginal e concepção divina nas estórias da Antiguidade, como por exemplo, o nascimento de Dionísio, que inclusive, salvo melhor juízo, vai ao Hades salvar sua mãe; bem como o nascimento de Augusto César cuja mãe também foi concebida pela divindade, e cujo nascimento foi considerado a “boa-notícia” (o evangelho) e que este seria o encarregado de levar a luz para todas as nações. Portanto, talvez seja razoável entender que muito do discurso da comunidade primitiva seja realmente isso: um discurso apologético da comunidade primitiva. E como certa vez afirmou o católico-romano John Dominic Crossan, que, se ele não aceitava que tais “divindades” antigas tinham sido geradas por uma virgem, sua honestidade intelectual o fazia entender que também não deveria acreditar que Jesus tivesse tido igual origem. Vejamos o que diz o renomado estudioso e historiador:



Augusto nasce de uma concepção milagrosa pela conjunção divina e humana de Apolo e Ácia. Como o historiador reage a esta narrativa? Há alguém que a entenda literalmente ou mesmo coloque de lado suas afirmações transcendentais como estando além do julgamento histórico, ou do teste empírico? Os historiadores clássicos, mesmo os mais religiosos, não costumam fazer isso. Essa divergência cria um problema ético para mim. Todas essas concepções divinas, de Alexandre a Augusto e de Cristo a Buda, devem ser aceitas, ou literal e milagrosamente, ou metafórica e teologicamente. Não é moralmente aceitável dizer direta e abertamente que nossa narrativa é verdade, mas a dos outros é mito; a nossa é história, mas a dos outros é mentira. É ainda menos moralmente aceitável dize-lo indireta e veladamente, ideando estratégias defensivas e protetoras que se aplicam só a nossa narrativa[2].


Muitos podem acusar tal pensador de herege, ter falta de fé, pensador liberal, etc. Entretanto, penso que também podemos pensar na hipótese de ser alguém em profunda busca pela verdade, com atitude moral corajosa e honesta nos termos por ele mesmo relatado, e que, mesmo tendo assumido o risco de não aceitar a literalidade de um dogma proclamado por sua igreja, ainda permanece, pelo menos para ele mesmo, católico-romano (digo, para ele mesmo, pois, para o direito daquela igreja, acho que ele já apostatou por si só). Quero que os meus leitores percebam que não estou, eu mesmo, rejeitando o dogma da virgindade de Maria, mas sim, demonstrando profundo respeito por pessoas que são do círculo cristão, mas estão, na base de muitos estudos, chegando à conclusões diferentes. Hoje, quinhentos anos após a Reforma, muitos protestantes podem se considerar a si próprios como ultra-ortodoxos no que crêem, mas se esquecem que os reformadores, quando postularam coisas como a relatividade do clero, a salvação unicamente pela fé, o sacerdócio universal dos crentes, a primazia das Escrituras frente ao Magistério da Igreja, foram considerados hereges e ultra-modernistas.

Mais radical ainda, a nosso ver, na exigência que se creia no dogma, é o credo Atanasiano, quando dispara dizendo que quem não guardar a fé como um todo, não poderá ser salvo de jeito nenhum. Vejamos uma parte de seu credo:


Um, não pela conversão da Divindade em carne,
mas pela assunção da sua Humanidade em Deus.
Ele é inteiramente um, não por mistura de Substâncias,
mas porque é uma só Pessoa.
Porque assim como a alma racional e a carne é um homem:
assim Deus e Homem é um Cristo.
(...) e posteriormente dispara:
Esta é a fé católica,
na qual o que não crer fielmente,
não poderá salvar-se.




Sabemos que os pressupostos filosóficos envolvidos na elaboração deste credo e de outros são um tanto quanto ininteligíveis para a maior parte das pessoas; mas mesmos estes, por mais ortodoxos e exatos que sejam, são o discurso teológico da igreja, que refletem o seu entendimento acerca do Cristo (talvez alguns achem que tenha sido ditado diretamente pela Divindade, ou que esta iluminou a mente de Atanásio). Por exemplo, dizer que não há mistura de substâncias em Cristo, não obstante Cristo ser Deus e homem, o que exatamente quer dizer, acaso indagarmos que substância é essa? Alguns poderão dizer: a substância divina, oras. Mas que substância é essa? E como não se mistura, apesar de serem um? Portanto, não importa o quanto seja grande o entendimento que se postula acerca destes credos, em última instância, ainda são postulados da fé, que refletem o entendimento da Igreja, mas que estão em um campo impossível de qualquer verificação. E se colocamos a confissão de tal credo totalmente obrigatório para a salvação, não estaríamos condenando àqueles que, por um ato de sinceridade entenderam que, elevar Jesus a categoria divina igual ao do Pai seria incorrer em risco de politeísmo? Estão condenados, ainda que, creram no que creram porque entenderam desta forma permanecerem fiéis ao seu Deus? Não poderíamos imaginar que se estas coisas tivessem sido claramente reveladas pelos apóstolos, não teria existido tanta controvérsia sobre as tais? Nunca nenhum cristão discutiu se Jesus era ou não o Senhor; todos assim o consideram; entretanto, minúcias teológicas e técnicas criaram rupturas e divisões que não foram sanadas até os dias de hoje, como no caso do Nestorianismo.

Alguns afirmam que não há necessidade de se entender o que se quer dizer em tais credos; basta acreditar no que a Igreja diz (geralmente, é o discurso de alguns católicos romanos, para desculparem aquele povo que vai a missa de vez em quando mas que não se interessa muito pela teologia da sua igreja). Mas será que isso significa dizer que quanto maior for o sacrifício do intelecto ou mesmo a preguiça em prol de um grupo se estará mais seguro em relação a Deus? Não estaríamos aqui voltando ao argumento da autoridade?

Talvez os cristãos não devessem fazer destas questões mais especulativas motivos para divisões intermináveis, mútuas condenações, mortes e perseguições como as que ocorreram no passado. É ininteligível para mim que o Cristo perseguiria ou entregaria pessoas para serem executados pelo Estado por terem um entendimento diferente do seu. Ou que os expulsasse de seu grupo. Ele pacientemente conviveu toda a sua vida com pessoas dos mais diferentes pontos de vistas e se mostrou extremamente amoroso aos considerados mais heterodoxos diante dos mais ortodoxos de seu tempo. Se o Cristo precisa de uma lei que obrigue, que force que seus fiéis o obedeçam, penso que o próprio Senhor diria que cada um que seguisse o seu próprio caminho, e o seguisse e o obedecesse quando tal fosse um ato de amor voluntário, e não uma obrigação legal. Dizemos isso, pois sabemos que tais confissões acabaram por serem elevadas pelo império ao nível de leis obrigatórias e cogentes que por todos deveria ser seguida.

Com isso, não queremos dizer que as confissões, os credos, a Tradição e as Escrituras precisem ser abandonadas. Muito pelo contrário, devem ser pensadas e repensadas em nosso discurso apologético para com o mundo; amadas de todo o nosso coração, nós, os cristãos. Se antigamente a maioria considerava facilmente a possibilidade de uma mulher conceber de uma divindade (Celso não questionou a possibilidade de uma virgem conceber, afinal, isto irai contra o relator mítico de Augusto César, mas questionou o fato de uma mulher pobre e judia ter concebido sobrenaturalmente), atualmente não parece ser este o quadro. E o argumento de que creio porque a igreja me disse, ou porque está escrito na Bíblia não parece mais ser tão convincente nos dias de hoje como já foi um dia.

Não tenho condições para tentar responder o questionamento feito desde o início deste artigo; e se a resposta é todos os credos, toda a tradição, tudo o que a Igreja diz, tudo o que está na Bíblia, etc. Daí, ser um convite para a reflexão. Esta reflexão buscou, não sei se com sucesso, ir um pouco além daquela simples conclusão que nos diz: "no essencial, concordância, no não essencial, tolerância, e em tudo, caridade", visto que, até o que é essencial tem sido objeto de discussão. Sei também que, se aplicado o método aqui sugerido sobre todo o arcabouço da fé, se estaria questionando radicalmente praticamente todos os dogmas e doutrinas ensinadas ao longo dos séculos. Mas talvez seja por isso que, talvez, no presente momento estejamos em um dos mais sérios momentos apologéticos da história do cristianismo. Particularmente, compartilho com os cristãos o que entendo ser a experiência de Cristo, experiência que, para mim é real, e que me faz crer, questionar e propagar o que tenho entendido ser esta experiência. Entretanto, talvez seja razoável ponderar que talvez ser aceito ou não por Deus não esteja tanto no que se crê ou no que se confessa infalivelmente, mas sim na existência diante D’Ele e dos demais seres humanos, o que engloba tudo isso, a fé, a dor, a miséria, o perdão, a tristeza, a alegria e a coerência entre aquilo que se diz professar e aquilo que se vive.

[1] O artigo que se segue não tem a intenção de ofender nenhum cristão conservador, seja da ala tradicionalista da Igreja Romana, seja fundamentalista protestante, seja ortodoxo de qualquer jurisdição. São apenas questionamentos que honestamente, penso, todos nós precisamos nos fazer alguma vez em nossas vidas, e que refletem os questionamentos do autor em sua própria jornada espiritual.

[2] In O nascimento do cristianismo. O que aconteceu nos anos que se seguiram à execução de Jesus. Ed. Paulinas, p. 68.


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