quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O ceticismo de um fundamentalista...









A cena que pretendo narrar passou-se comigo mesmo a menos de vinte e quatro horas.

Ontem a noite estava eu numa de minhas classes, lecionando, quando o assunto pedeu para a situação dramática porque atravessa a velha metrópole do Rio de Janeiro, reproduzindo nossos alunos algumas das teorias e opiniões absurdas divulgadas pela mídia, em especial pela TV Globo.

Então fui obrigado a sair do programa para abordar a temática das favelas, da familia, das drogas, da violência, da mídia e da propaganda e do capitalismo; convertendo a aula numa espécie de conferência sociologia mediada pelos próprios alunos, na medida em que ia dialogando com eles e respondendo a suas perguntas e/ou objeções.

E como não vimos o tempo passar, bateu o sinal do intervalo.

De minha parte, como não aprecio banalidades, intrigas e fútricas, não desci a sala dos professores, permanecendo - como de praxe - na mesma sala enquanto transcorria o intervalo.

Geralmente aproveito o momento para aprofundar o dialogo com os alunos mais aplicados e perspicazes e assim o fiz.

Casualmente um dos alunos mais aplicados da sala é pentecostal por formação e prática, com tendências criacionistas que felizmente já estão sendo superadas.

Foi justamente ele quem surpreendeu-me com esta colocação (pois haviamos debatido sobre o consumismo e o fetiche das 'marcas' e da propaganda):

"Acontece professor que é característico do homem apegar-se a alguma coisa.
Ou o sr ainda não notou que as meninas se apegam a beleza e aos cosméticos, que alguns jovens de apegam ao futebol e outros ainda a música. O sr mesmo parece ser apegado aos livros e há quem seja apegado a obras de arte. Portanto o que há de extraordinário em alguém apegar-se a uma roupa de marca ou a alguma moda?"

Sabendo que o aluno era religioso e nominalmente Cristão, aproveitei a oportunidade e fiz a travessia:

-- Roberto, vou rebater seus argumentos empregado título de uma das brochuras da Torre de vigia. (tipo de publicação considerada herética por ele)

"Apegai-vos ao que é excelente."

Ao ouvir estas palavras eu aluno quase que deu um salto, enquanto exclamava:

-- Professor, professor, quem será capaz de apegar-se ao que é excelente?

Respondi na lata:

-- Nosso Mestre e modelo, Jesus.

-- Ah Jesus - replicou ele - mas Jesus é perfeito.

-- Se ele foi nós também podemos se-lo certamente.

-- Penso que o homem seja incapaz de atingir a perfeição, arrematou o meu aplicado aluno.

-- E no entanto esse mesmo Jesus disse: Sêde perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito. Teria ele mentido?

Neste pondo nosso jovem parou, pensou e exarou estas surpreendentes palavras:

-- Quanto a este particular sou meio cético...

Só me restou finalizar o dialogo com estas palavras:

E no entanto a fé é um salto no escuro, ou salta-mos ou não salta-mos. Eu já fiz o salto.



Depois que cheguei a casa, puz-me logo a refletir o que pode levar um jovem a aceitar passivamente todas as fábulas do Velho Testamento - Criação ex nihil, dilúvio, Dez pragas do Egito, Jonas, etc - e a duvidar do Sermão da Montanha.

Neste momento vieram-me a cabeça as palavras de Obama: "Caso levassemos - os Yankees que são em sua maior parte judaizantes e fundamentalistas - o Sermão da Montanha a sério o que seria de nosso país?"

Sera tal tipo de espiritualidade - tão problemática - saudável?