quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O tolerância dos Cristãos e a intolerância do Evangelho...

Eu não tenho vergonha ou receio algum de vir a público apresentar-me como Cristão convicto e membro do Partido Comunista brasileiro.

E digo-o serenamente sem medos, complexos ou receio algum.

Digo-o francamente e até com certo orgulho, de quem está a cumprir com seu dever.

Afinal sabemos ao lado de quem se poz o Senhor Jesus Cristo nosso Mestre e môdelo supremo.

Vergonha eu teria e muita caso me postasse ao lado do Reino e do poder do dinheiro.

Vergonha eu teria caso compactuasse com tal culto idolatrico.

Vergonha eu teria de incensar aos altares de Mamom...

Devo entretanto ser fiel a minha consciência, a qual me impede de servir a dois senhores: ao Verbo encarnado e a riqueza.

Fico decididamente com o Cristo e com aqueles aos quais dirigiu seus apelos: os pobres, pois escrito esta:

"Eis que vem para evangelizar aos pobres da terra."

Fico pois com a 'gente da terra' detestada pelos fariseus hipócritas mas amada pelo Senhor Jesus Cristo.

E não temo as objurgatórias procedentes do vil rufião Plínio Correa de Oliveira e de seus sequazes...

Não, não temo as objurgatórias procedentes de qualquer carne folgada e metida a besta...

Temeria sim as censuras de um S João Crisóstomo, monge e asceta, ralado por jejuns e privações... as censuras de um Crisóstomo ou as dum Beda temeria, as da carne gorda e bem nutrida que finge honrar a Cristo, a estas não temo...

Afinal essa mesma carne que afirma serem Cristianismo e socialismo inconciliaveis é a mesma carne mentirosa e cinica que afirma serem Cristianismo e capitalismo perfeitamente conciliáveis, mesmo em face a lei do Evangelho, que declara:

"Não acumuleis bens neste mundo..."

&

"Contentai-vos com o necessário para viver, pois a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro."


Amor ao dinheiro = Capitalismo...

Maldições não me assustam... pragas não lhas temo... em castigos temporais não creio e das chamas do inferno mofo conscientemente...

Assusta-me sim o inferno experimentado neste mundo pelo pobre, acossado pelo egoísmo de seu patrão. Isto sim assusta-me bem como a luta selvagem do homem contra o homem...

Pois no Evangelho leio: Sois todos irmãos.

Se assim o é, todos fatricidas, na medida em que encaram seus irmãos como rivais e procuram supera-los ao invés de auxilia-los.

Vejamos porém, o que é que este Cristianismo, seja nos EEUU, na Grécia ou em Portugal tem tolerado:


"Aqui nesta terra - Baleizão - é muito díficil viver, mas, muito mais díficil é que alguém permaneça aqui até morrer.
Todos saem daqui para outro lado.
Todos são perseguidos pela mesma miséria, aqui e noutro sítio qualquer. Os que partem são os homens.
As mulheres ficam sozinhas a espera dos homens que nunca voltam.
Os rapazes crescem e fazem o mesmo caminho. É por isto que há tão poucos mortos...
Nos meses de chuva ninguém trabalhava e ninguém tinha o que comer.
Às vezes iamos em grupo pedir um pouco de trigo aos donos do monte.
Entretanto nem pão nos davam alegando que as coisas também lhes corria mal e assim ficavamos a merce da fome.
CERTO DIA UMA POBRE MULHER MORREU A TRABALHAR.
MAGRA E ESTENDIDA NA TERRA COM A BOCA ABERTA PARA O SOL.
TINHA UM ESPIGA DE TRIGO PRESA A MÃO, UMA ESPIGA IGUAL AS QUE SEGARÁ DURANTE QUASE SETENTA ANOS.
VIVIA SÓ POIS OS FILHOS HAVIAM PARTIDO EM DEMANDA DE LISBOA.
DO ESPOSO NINGUÉM SABIA POIS HAVIA SUMIDO NESTE MUNDO DE DEUS.
Então fomos pedir ao patrão algum dinheiro para o sepultamento.
levei-a eu mesmo em meus braços e coloquei-a sobre o mármore branco que ornava o piso da entrada da herdade do patrão.
ESTA SAIU, OLHOU PARA NÓS, FITOU O CÁDAVER E DISSE:

-- LEVEM JÁ ESTA BURRA DAQUI, JÁ LHES DEI UMA PARTE PARA CEMITÉRIO, O QUE MAIS QUEREM?


-- Um mísero caixão, repondí.

Ele limitou-se a fitar o chão sem responder.

-- Vai ou não vai dar-nos um caixão, gritou um homem indignado.

E ele assim respondeu-nos:

-- SIM, SE CADA UM DE VÔCES SEGAR MAIS QUATRO PARTES, PODERÃO PAGAR O SUFICIENTE PELO PREÇO DO CAIXÃO.

Pegamos os restos mortais e nos retiramos.

Que podiamos ter feito?

Pois aquele que protestasse ou parasse de trabalhar era logo vizitado pela guarda republicana. (e acusado de comunismo - grifo nosso)."


Este relato monstruoso pode ser lido na obra de Tarquini (Lisboa - 1974) "A morte no Monte - Catarina Eufêmia" pp 15.


Eu mesmo ouvi de um velho lusitano a história segundo a qual em algumas famílias de sua aldeia, uma sardinha era dividida entre quatro pessoas, servindo para almoço e janta...

E ainda há canalhas que ousam descrever tudo isto como sendo uma 'Civilização Cristã'.

Assistam ao documentário Sicko - SOS saúde, Michael Moore, 2007 e depois me respondam: diante disto que Jesus poderia fazer além de empunhar o látego?

Bendito Evangelho, bendita senda de luz e graça que me fez cair as escamas dos olhos e recobrar a visão! Bendito caminho de Damasco!