segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Um impulso para sair da realidade...

Todos os seres humanos aspiram por serem felizes.

Todos aspiram por um tipo de vida ideal, isenta de males e sofrimentos.

Todos aspiram pelo bem estar e pelo estar bem.

Aborrecer a situações de sofrimento e desconforto é instintivo do homem e decorrente de sua própria natureza.

E no entanto a realidade nem sempre corresponde aos anseios, desejos e espectativas deste homem...

Pelo contrário a realidade quase nunca lhe é apetecível, pois quase nunca satisfaz suas aspirações de felicidade.

Em tais circunstâncias só resta ao homem lutar heroicamente contra as forças e poderes que lho esmagam ou pura e simplesmente deixar-se levar como uma folha batida pelo vento ou como um galho carregado pelas ondas do mar...

Em vão este homem se debate, em vão geme, em vão chora, em vão pragueja, em não ora, em vão tenta resistir pois a natureza não se compadece de quem quer que seja e suas leis imutáveis e constantes ignoram excessões.

Justa, a mãe natureza não faz acepção de pessoas de modo que todos os mortais são contemplados ora com dores, ora com prazeres e deleites; ora com sofrimentos e fadigas, ora com com amenidades; ora com situações agradáveis, ora com situações repugnantes.

E no entanto o homem, mesmo sendo um Ser racional e livre, acrescentou um rosário infinito de males a sua condição e a condição de seus pares.

Construiu, ergueu e edificou monumentos soberbos, sujos fundamentos entretanto são feitos de sangue, suor e lágrimas...

Estabeleceu um regime de luta que lança irmão contra irmão como se fossem selvagens...

Institui um sistema pautado na concorrência vil e desonesta entre filhos do mesmo Pai.

E deste modo engendrou novas formas de opressão e de sofrimento jamais observadas na natureza e cuja principal consequencia foi a destruição das mais belas esperanças e sonhos da maior parte dos seres humanos.

Pois para que meia dúzia de vaidosos sonhos sejam transformados em realidade outros tantos milhares de sonhos tem sido convertidos em pesâdelos.

Nascido livre entre iguais este homem é obrigado a curvar-se perante outros homens e a prestar vassalagem...

Mal nasce e já recebe definições, tais como súdito, servo ou proletário, devendo produzir para que outros consumam e semear para que outros colham e saboreiem o que foi semeado, enquanto ele, o semeador fica a chupar os dedos, quando tal privilégio lhe é concedido.

Pobre homem este que nasce prisioneiro de um mundo artificial todo cercado por concreto, ferro, aluminio e vidro... pobre homem este que vem a luz da existência longe das flores e das árvores sem jamais ter afagado um esquilo, uma cavalo ou uma garça...

Desaventurado homem este que só conhece as belezas naturais através das fotos e gravuras de livros.

Pobre homem que vive preso ao tique e taque dum relógio que o governo duma hora para outra decide alterar sem prestar a mínima atenção a seu relógio natural ou biológico.

Escravo do mercado e das forças produtoras este homem só tem tempo para ganhar dinheiro e na quantia estritamente necessária para sobreviver. E assim deixa de viver para sí e para os seus passando a viver para as máquinas e os niquéis...

E quando nova máquina, mais avançada é produzida este homem, já ralado pelo trabalho e às vezes até doente, é atirado à sarjeta sem dó nem piedade...

Porque os srs do capital ignoram o que seja piedade.

Então este homem vive num perpétuo temor de perder seu miserável emprego e de vir a passar necessidade... vive sobre continua pressão e assim adoece não só no corpo, mas especialmente na alma...

Para não adoecer só lhe resta - como foi magistralmente descrito por J Steinbeck - alienar-se ou seja fugir a esta realidade desumana através do álcool, da droga ou das fantasias religiosas.

E assim o imaginário popular vai tecendo suas fábulas sobre visões, aparições, milagres, curas, glossolalias... e tais fábulas se convertem para ele numa espécie de válvula de escape, através das quais ele procura escapar, ao menos metalmente, a realidade que o consome...

Foge pois o trabalhador moderno, sem pão e cobertor, para o Reino dos mitos religiosos e passa a construir mentalmente todo um universo a parte ou melhor dizendo uma realidade paralela, uma realidade sua que pode alterar com o poder de sua palavra alterando as leis inflexíveis que lho aprisionam...

Foge pois o proletário sem instrução para o domínio das fantasias e vãs promessas na medida em que lhe prometem algum alivio...

Foge pois o homem do campo, o sertanejo, o lavrador para as remotas sendas do folclore e assim exila-se deste mundo ingrato que violenta sua natureza uma vez que não tem esperança de vir a transformá-lo.

Deve a religião alimentar estas falsas esperanças ou mostrar-lhes a dura realidade?

O que Jesus faria?

Quer diria ele ao proletário de hoje?