domingo, 1 de novembro de 2009

Calvinismo e Arminianismo - Perspectivas pessoais 2

O problema da doutrina calvinista, a meu ver, é que, parece criar uma contradição insuperável no próprio ser de Deus, fazendo com que o modo de agir de Deus, o ser de Deus, não se pareça muito com o quadro geral da revelação exposta nas Escrituras Santas.

Aprendemos do profeta Ezequiel, por exemplo, que Deus não tem nenhum prazer na morte do ímpio. Muito pelo contrário, Ele quer que o ímpio se converta (Ezequiel 33.11). Há um incessante apelo da parte de Deus para que todos se arrependam.

Fazendo coro com esta antiguíssima tradição profética, também o apóstolo Paulo, ao escrever para Timóteo, ensina que Deus deseja que "todos os homens sejam salvos e chegem ao pleno conhecimento da verdade" (I Timóteo 2.4)

Há muitíssiimas passagens similares, das quais eu não gostaria de cansar o nobre leitor. De qualquer modo, o que eu quero dizer, é que, fica complicado, e, no meu sentir, com uma certa dose de incoerência entender que se Deus quer que todos sejam salvos, escollha somente salvar alguns, sendo, em última instância, Ele mesmo, Deus, a causa do seu próprio desprazer.

Digo Ele mesmo, pois, segundo a própria doutrina calvinista, o ser humano não tem escolha na vida a não ser pecar, pecar e pecar. Em certo sentido, não temos culpa de estarmos nesta condição, visto que já nascemos nela. Logo, se Deus não sente prazer na morte e na condenação do ímpio, e quer que todos os seres humanos sejam salvos, o motivo da condenação de alguém só pode estar na própria recusa em se converter.

Ai, dirão os calvinistas, que realmente todos os seres humanos não estão dispostos a se converter. Entretanto, analisando a fundo, não faz nenhum sentido dizer que eles não estão querem se converter, se não o poderiam, ainda que quisessem (e, de acordo com a doutrina calvinista, não querem, e não podem se converter). Que sentido fará, diante do juízo final, acusar alguém de não ter se convertido já que ele não poderia, ainda que quisesse?

Daí, a doutrina arminiana sustentar que, não obstante o estado de queda do ser humano, a graça de Deus o eleva, de algum modo, a condição de poder acolher ou rejeitar o evangelho. Ou seja, há um rendimento do ser humano à graça de Deus que nele opera. Neste sentido, diz-se que, o ser humano é salvo somente pela graça, pois se não fosse ela, ele não se converteria; entretanto, não elimina a responsabilidade humana em não recusar, não expulsar a graça, não resistir ao Espírito Santo. As Escrituras também estão refletas de passagens em que muitos seguem suas vidas rejeitando o Espírito Santo, atribuindo esta responsabilidade inclusive para crentes. Os calvinistas dizem que este ato em não recusar o evangelho já é uma obra humana, logo, acusam os arminianos de pregarem a salvação também pelas obras, e não somente por fé e por graça. Os arminianos entendem que, o ato em não recusar a graça de Deus não se configura em uma obra no sentido que Paulo atacava, ou seja, boas obras exteriores, como as obras do cumprimento da lei, visto que, a iniciativa e toda a obra de salvação do ser humano partem de Deus, cabendo ao ser humano somente não recusar. Entretanto, ainda que se entenda que o ato em não recusar a graça de Deus já se configure uma obra humana, não poder-se-ia dizer que este seria precisamente o equilíbrio entre fé e obras que tantos teólogos discutem durante estes últimos quinhentos anos?

Portanto, neste sentido, aí sim seria coerente entendermos que Deus quer que todos sejam salvos, mas que, infelizmente, nem todos são. Entender de modo contrário é criar algumas constradições complicadas, como a de Deus querendo que todos sejam salvos, mas efetivamente, só salvando alguns; não tendo prazer na morte dos ímmpios, mas predestinando, de antemão os que serão condenados.

A doutrina calvinista, no meu sentir, exagera, em detrimento de outros atributos de Deus, na questão da soberania de Deus, mas mais precisamente no que tange a esta soberania aplicada na salvação do ser humano.

Agora, com isso não quero dizer que não haja trechos e passagens nas Escrituras que pareçam indicar a questão da dupla predestinação. Reconheço que há tais passagens. Ocorre que, como seres humanos, temos a tendência de tentar pensar sistematicamente todas as nosas idéias acerca do conhecimento humnano. Nada mais natural.

Portanto, os que pensam da forma calvinista, tenderão a amenizar, ou adaptar as passagens que narram que Deus quer que todos sejam salvos, que amou a todos, que Cristo morreu por todos, que Deus se revelou, de uma ou de outra maneira a todos, etc. E o arminiano fará o mesmo com passagens que remetam a predestinação absulta dos salvos e dos réprobos.

Particularmente, fazendo uma análise meramente quantitativa, tenho a ligeria impressão de que o calvinista precisa adaptar um número um pouco maior de passagens ao seu sistema (mas sei que um calvinista iria discordar disso). Sei que no protestantismo, estas questões têm sido consideradas ultimamente "adiáphoras", ou seja, opiniões teológicas que cada crente pode ter, e continuar sendo um verdadeiro cristão.

Entretanto, penso que um desvio exagerado em uma ou outra crença irá produzir um cristianismo e uma sociedade completamente diferente. O desvio prático na questão de uma radicalização no pensamento concernente a eleição divina pode produzir uma sociedade arrogante, exclusivista, e mesmo racista, como o que ocorreu nos EUA e na Africa do Sul, que, não coincidentemente foram colonizados por calvinistas radicais. Já, a idéia radical na questão do livre arbítrio humnano, pode ocasionar uma religião em que o ser humano esteja no centro, como vemos todos os dias nos mais diversos segmentos neo-pentecostais.