terça-feira, 30 de março de 2010

Sacerdócio e Pedofilia

Eis ai um assunto muito complicado, em que me arrisco a escrever um monte de bobagens...

E ao falar dele, sempre tomo o máximo cuidado para não ofender os meus irmãos católicos.

Bom.

Penso que a maior parte dos leitores viram a semana passada o agito na mídia por conta dos casos de pedofília que voltaram a rondar o clero católico.

É uma questão bastante delicada e complicada, principalmente pelo fato de envolver fé e confiança em toda esta questão.

Por exemplo, eu tenho uma filha que, quando começou ir para a igreja, se relacionar com o povo, era bastante tímida e temerosa. Praticamente não cumprimentava ninguém e se escondia. Vamos e convenhamos, era um bebezinho...

Entretanto, poucos meses depois, elas se desprende de minhas mãos e se emaranha no meio do povo, cumprimentando todo mundo sem sequer eu pedir, adiantando-se a mim, impressionantemente. Há um bigodudo, um homem grande, que no início ela parecia ter muito medo. Agora, ela para em frente dele e fica fazendo pose de bailarina, e ele a pega no colo e beija. Assim também com o Pastor da igreja, que é um homem "enorme de grande".

Tudo isso ocorre porque eles ganharam a confiança dela. Até acho que no meio evangélico isso não seja muito difícil, afinal, todos os membros do clero geralmente são casados, têm filhos também que acabam sendo amiguinho dos nossos filhos, etc. Muito bacana esta tradição comunitária protestante.

Entretanto, no meio católico, não deve ser muito diferente. Um pai, uma mãe, confia no sacerdote que lhe ministra, seja na paróquia, seja no colégio, etc. Está ali um representante de Cristo, que age "in persona Christi". Isso reveste tal crime de uma aura terrível, pois o sacerdote já tem derrubada, diante de sim, barreiras que o marginal comum precisa ainda fazer maior esforço para vencer.

Bem.

Ser celibatário de modo algum implica que alguém terá desvios sexuais. Houve e há muitos santos na história que são celibatários.

Também não sou ninguém para propor soluções um tanto quanto difíceis de serem resolvidas...

Entretanto, há algo que penso que precismos começar a ponderar.

Quando passa a existir um tipo de "substrato social", uma certa "opinião popular", um certo sentimento estranho no ar referente a uma dada situação, a uma dada profissão, penso que deveria ser verificado um certo sinal de alerta.

É complicado por em palavras, mas vou tentar explicar o que quero dizer. Quando se fala, por exemplo, em profissionais mentirosos, pensa-se logo em advogados. Basta ler as piadinhas que geralmente se conta a respeito de tal classe (da qual eu orgulhosamente já fiz parte). Todos sabemos que há mentirosos em todas as profissões; entretanto, inconscientemente a sociedade vai atribuindo mais tal comportamento aos operadores do direito que atuam na advocacia, talvez pelo fato desta classe nem sempre utilizar dos meios mais ortodoxos, por assim dizer, para defender os seus clientes... Se você pegar uma piada de advogado, e colocar um engenheiro ou médico no lugar, não fará sentido algum... É a mesma coisa quando se fala em igrejas que pedem muito dinheiro, clérigos picaretas e podres de ricos. Já se pensa em pastores, não em padres...

Eu temo que este sentimento parecido esteja ocorrendo para com o clero romano. Há uma certa jocosidade no ar, na mídia, nos meios mais "undergrounds", por assim dizer, que têm atribuido ao clero romano certos comportamentos sexuais, seja no que tange a questão da pedofilia, seja na questão homossexual... (a prática homossexual é vista como desvio na igreja católica, e é neste sentido que emprego tal palavra aqui). Há pedófilos em todos os lugares, em todas as áreas. Há até pastores protestantes que cometeram tal ato. Mas parece haver um sentimento geral de que tal ato está muito mais associado ao clero romano ultimamente.

O Vaticano se propõe a apertar o cerco em torno desta questão. Será que vai resolver? Com a pressão da mídia, certamente haverá um certo "maquear", mas será que as alterações serão profundas o suficiente para mudar tal quadro?

Uma coisa que sempre me chamou a atenção foi o fato de que, desde a instituição do celibato obrigatório, houve muitas críticas a esta obrigação. Eu tive acesso a muitas, e entre elas, dos tempos de Wycliff, quando seus seguidores diziam que o celibato, infelizmente para alguns abria a possibilidade de um certo "abrasamento" entre os membros do clero. Tais críticas se repetem através dos séculos.

Nas igrejas ortodoxas não se ouve falar de tais atos com tanta intensidade. Sei que muito do que digo aqui são coisas que apenas refletem minha subjetividade a respeito do assunto. Esforço-me para não ser preconceituoso e deselegante. Entretanto, fato é que, nas igrejas ortodoxas, os membros do presbiterato podem casar, sendo que o celibato é reservado somente para os monges que querem, um dia, se tornar bispos. Neste caso então a pessoa é realmente livre para viver a sua vocação, seja no celibato, seja no casamento, e ainda assim, ser um ótimo sacerdote.

A igreja católica demora muito para realmente fazer as reformas que talvez sejam necessárias. A maior parte das teses protestantes, por exemplo, só foram acolhidas no Concílio Vaticano II, ou seja, quase cinco séculos depois da Reforma, a ponto do Rubem Alves já ter escrito que a Reforma produziu melhor impacto na Igreja de Roma no sec. XX do que nas próprias igrejas protestantes. O enrijecimento na seleção de futuros candidatos ao clero (que, segundo ouvi falar, oscila, geralmente negativamente no que tange ao número de vocações), não sei se será suficiente para resolver realmente esta questão.