quinta-feira, 1 de abril de 2010

A questão da coisa pública no Brasil

Não sei se os queridos leitores tiveram oportunidade de assistir o CQC há umas duas semanas atrás. Eu não assisti. Mas ouvi a repercussão. Acho que no youtube pode-se achar algo a respeito.

Pelo que entendi, a galera do CQC havia doado uma televisão para uma escola de Barueri. Escolheram aleatoriamente a escola e o município.

Três meses após, foram ao Secretário da Educação fazer uma entrevista, e perguntaram-lhe se aceitaria uma doação e se tinha ciência se tudo o quanto era doado para a educação iria para o fim determinado, e ele respondeu afirmativamente. Foi então que informaram da televisão que tinham doado há alguns meses atrás.

Fato é que a televisão não estava na escola, e sim na casa de um particular. Eles não contavam que o pessoal do CQC havia colocado um GPS no referido aparelho. Enquanto a entrevista rolava com o secretário, já havia um pessoal da reportagem na casa em que eram emitidos os sinais do aparelho. Assim que a entrevista terminou, salvo melhor juízo, uma mulher, carregando o aparelho, foi se dirigindo à escola e não quis dar entrevista...

Após, ouvi dizer que houve muitos xingamentos por parte do próprio Prefeito de Barueri em relação ao pessoal do CQC.

Entretanto, o mais surpreendente é que o pessoal da prefeitura conseguiu um liminar em primeira instância proibindo o CQC de veicular tal matéria.

É impressionante como o poder, tantas vezes, tem medo da transparência das informações. Imaginem se fosse em um país totalitário...

Mas, ainda bem, prevaleceu o bom senso, a democracia, o estado de direito, e a segunda instância do Tribunal de Justiça de São Paulo, salvo melhor juízo, pelas mãos do Desembargador Marrey Uint, derrubou a liminar e a matéria finalmente veio ao ar (e tem gente que ainda quer ser contra o duplo grau de jurisdição... ).

Há tantas coisas que podemos pensar a partir de tal episódio...

Mas uma delas que me surpreende ainda no Brasil é como com que facilidade àquilo que é destinado à utilização pública é desviada. A apropriação por um particular daquilo que é de todos. Isto parece estar arraigado na cultura do poder brasileiro.

Não costumamos prestar contas. Não gostamos de prestar contas. O grande "pai" quer que seus filhos confiem nele. Não quer auditoria. Não quer transparência. Ele se magoa quando a transparência, as contas são requisitadas. Ele acha que é desconfiança...

Mas não é verdade. A transparência, a confiança é algo que visa proteger o próprio administrador do dinheiro. E, em relação a isto, não estou me referindo somente aos poderes constituídos.

Isso diz respeito as empresas, ao comércio, e, no nosso caso, também às igrejas.

O modelo histórico protestante sempre foi caracterizado, no meu sentir, em uma posição de vanguarda, pois, contrariando a tendência caudilhista de nossa cultura, sempre teve transparência em suas contas, bem como uma espécie de orçamento participativo, em que a comunidade, ou gente escolhida dentre ela, resolvia juntamente como o clero os destinos da denominação.

E se ouvia falar de escãndalos financeiros nestas igrejas? Seu clero era milionário? Sabemos que não (qualquer exceção aqui somente comprovaria a regra).

Entretanto, o movimento neopentecostal parece ter herdado o que de mais nefasto há na política brasileira, na cultura católica, em que o clero não se sente na obrigação de prestar contas de nada para os ditos leigos...

E ouvimos sobre escandãlos financeiros desta gente?

Quase sempre.

O tempo todo. Difícil é não ouvir. Do clero, dos seus membros na política, etc...

A coisa chega a tal ponto de haver justificação teológica para tudo, mediante a tal teologia da prosperidade.

Aí fica fácil; sejam prósperos como eu sou próspero...

O que o pessoal não entende é que a transparência, a prestação de contas é algo que nos protege a todos, não somente o liderado, jurisdicionado, o cidadão, mas também ao administrador, pois conforme já disse alguém, o poder absoluto corrompe absolutamente.

Categoricamente, o protestantismo histórico parece não ter funcionado no Brasil. Igrejas democráticas, liberais, seja do modelo batista, presbiteriano ou mesmo anglicano (que, embora episcopal, tem seus bispos eleitos com participação dos leigos, entre outras coisas), metodista, não pega. Bom é o pastor machão, que grita com o povo, dá porrada no púlpito, cheio de poder e carisma, chama de feiticeiro quem discorda-lhe de um ponto de vista pois é insubmisso, chama de ladrão quem não é dizimista, mas sabe o que faz, afinal, não pede opinião de ninguém. Este modelo pega no Brasil, pois reproduz exatamente o modelo que herdamos à séculos...

A crítica socialista foi feita em um contexto de estado liberal, um estado organizado como estado de direito, republicano. No Brasil, acho que não somos nada disso. Analise profundamente as instituições que temos e parecem que sequer são republicanas. Veja os incontáveis cargos de confiança que temos em nossas instituições, tanto no Judicário, quanto no Legislativo e no Executivo... Vá até os locais mais afastados dos centro urbanos e terás dúvida se realmente o estado de direito chegou para aquelas bandas, com o predomínio de famílias mais poderosas, etc...

A igreja poderia ter tido uma função para culturalmente mudar estes valores. Mas ir contra tais valores talvez não redunde no sucesso que muitos querem ter. É a condenação ao fracasso, e talvez, ao desprezo. Infelizmente, mal somos republicanos (e mesmo um monarquista sabe da importância da coisa pública), mal somos democráticos, pois do menor ao maior, constantemente, em cada esquina, em cada oportunidade, se violenta a coisa pública.

Daí, no meu sentir, manifestaçóes como a do CQC são bem vindas, pois, se tal prática continua no país, fato é que, no nível das idéias, já não é como antigamente, considerada puramente normal. Se antes o soberano fazia o que queria, agora, pelo menos ideologicamente (e, isto não é pouca coisa) já não é mais assim.