sábado, 22 de maio de 2010

Maria, por um evangelical.




Por Carlos Seino
http://blogdoseino.blogspot.com/

Esta última quinta feira tive a oportunidade de estar em um evento ecumênico, realizado na Paróquia de São Luiz, aqui em São Paulo, em que um padre católico romano, um ortodoxo e um anglicano discorreram acerca das percepções que cada igreja tinha acerca da Bem Aventurada Mãe de Nosso Senhor.

O primeiro a falar foi o padre católico que deu uma boa visão histórica acerca dos diálogos entre a igreja católica e demais igrejas sobre o assunto. Discorreu sobre o diálogo com batistas, pentecostais, metodistas, e sobretudo, anglicanos.

Um dos pontos que talvez ele tenha mais dedicado seu tempo foi em uma, por assim dizer, a uma interpretação mais aceitável, dos dogmas mariológicos católico romanos por parte das igrejas oriundas da Reforma.

Ao discorrer, por exemplo, acerca do dogma da Assunção de Maria, quis dar a entender de que, muito mais do que uma elevação física dela aos céus, tem muito mais a ver com o fato do próprio Deus assumir os seus, levando-os para junto dele, o que ocorre com todos os demais santos, com aqueles que a igreja possui certeza de santidade, da qual Maria seria a principal representante.

Enfatizou também que, mesmo que não se chegue a um consenso, é possível buscar convergências. Chegou até supreendentemente a dizer que, ainda que Maria tivesse muitos filhos, isso de modo algum a diminuiria em seu papel na história do cristianismo (o que é um ponto de convergência com todos os protestantes).

Um outro ponto que tal padre discorreu foi pelo fato de, na própria linguagem dele, haver muitíssimas expressões populares, devoções particulares, etc, que fogem ao catecismo da igreja, e que se tornam verdadeiras cultos isolados à Virgem Maria, o que dificulta demais o diálogo com os evangélicos.

Discorreu também que um ponto forte do diálogo entre católicos e protestantes seria no próprio estudo aprofundado dos reformadores, que escreveram textos maravilhosos sobre Maria. Calvino a chamou de primeira discípula, e, sabemos, o reformador de Genebra em suas Institutas afirmou que todos os cristãos deveriam reconhecer os primeiros quatro "sacrossantos" (nas próprias palavras dele) concílios ecumênicos. E Lutero não deixava dúvidas em sua devoção na sempre Virgem, bem como que o Espírito a tornara imaculada no momento da encarnação.

Talvez uma das questões que tenha ficado no ar é o fato de que, no meu sentir, as mitigações que o referido sacerdote apresentou para se pensar acerca de Maria não teriam o acordo das mentes mais conservadoras do catolicismo, nem mesmo o seu posicionamento oficial.

O discurso do padre ortodoxo (Gregório) foi mais curto, devido ao avançar do tempo. Alguns pontos interessantes foi o fato da afirmação de que não existe uma caderia de Mariologia na Teologia Ortodoxa. Se estuda a pessoa de Maria na própria Cristologia, razão inclusive que lhe rendeu o título de "Theotokos" (um dogma cristológico, não mariológico, que significa geradora de Deus). Enfatizou o caráter perpétuo da virgindade de Maria, bem como a crença em sua dormição, qual seja, que depois que ela "dormiu" entre nós, seu corpo, corpo este que acolheu e abrigou o Rei do Universo, foi elevado por Deus aos céus, sendo portanto preservado da corrupção. Sem dúvida nenhuma, uma doutrina belíssima e cheia, ao meu ver, de sentido poético e teológico, que, ainda que fosse somente uma literatura, ainda assim deveria encontrar guarida no coração de todo cristão devoto. O Pai preservou, sim, preservou o abençoado corpo da mãe de nosso Senhor da corrupção. Também afirmou que não existe, como no catolicismo, um culto separado para Maria, e que em toda a iconografia ortodoxa, ela se encontra com o seu Filho, sem nenhuma exceção.

Depois, já não havia muito tempo para o anglicano falar (Rev. Cézar). Ele tão somente enfatizou a pluralidade de pensamento que existe no anglicanismo, tendo em vista o caráter, tanto católico, quanto protestante da referida igreja, mas asseverou que, não obstante muitos anglicanos concordarem com os dois últimos dogmas católicos acerca de Maria, fato que é que tais pronunciamentos careceram de um maior diálogo, tanto com eles, os próprios anglicanos, bem como com os ortodoxos. Ou seja, são dogmais que careceram de maior catolicidade.

E o que um evangelical como eu pensa acerca de tudo isso?
Bom, muito mais do que caberia em uma postagem de um blog, com certeza. Mas algumas coisas posso especular.

Primeiramente, sinto que os dois últimos dogmas papais dificultaram um pouco o diálogo ecumênico. É muito desconfortável para um evangélico ler tais pronunciamentos acompanhados, por exemplo, de um anátema. Ora; sabemos que, por exemplo, a doutrina da Virgem imaculada passou por muita discussão e especulação durante todos estes séculos. Os ortodoxos, salvo melhor juízo, entendem que ela se torna imaculada quando o anjo anuncia à Maria o nascimento do Messias. Lutero, como dissemos, na encarnação. Teólogos da Igreja discutiram isso. Mas a grande questão é: porque colocar um anátema acompanhando uma doutrina que, pelo menos biblicamente, na visão evangelica, não tem caráter soteriológico do mesmo peso, que por exemplo, a fé em Cristo? Porque não deixar tal discussão para o campo das "adiáforas" ou das "teologúmenas", enfim... Uma discussão acerca da pessoa de Maria nunca teve peso para dividir a igreja.

O mesmo pode ser dito acerca da doutrina da Assunção de Maria. Fato é que, penso eu, estes endurecimentos dogmáticos fizeram com que os evangélicos sequer pensem nestes assuntos. Passei alguns bons anos em seminários e faculdades de teologia protestantes e jamais vi uma única discussão sequer acerca da doutrina da imaculada conceição, nem mesmo uma única pregação sobre o fato de Maria ter tido a necessidade de se tornar imaculada para não transmitir ao cem por cento humano Jesus a mancha do pecado original...

Em segundo lugar, também no meu modesto sentir, e talvez com algum excesso de otimismo, entendo que a teologia ortodoxa pode vir a se tornar muito aceitável para protestantes que tenham iguais bases de pensamento (conservadores, fundamentalistas, evangelicais, etc). Isto porque, também caminhando por estes anos nestes lugares que se pensa um pouco de teologia, nunca vi um evangélico sequer, mesmo dos pentecostais mais acirrados (eu vivo no meio pentecostal), depois de tranquilas explicações, entender o porque do título "Theotokos" para a mãe de nosso Senhor. Explicado com calma, dentro do seu devido contexto, é possível se chegar a um consenso nesta parte. Mesmo a fórmula "Christotokos", devidamente preenchida de um sentido doutrinário adequado, pode levar a se dizer a mesma coisa, qual seja, de que Maria é mãe de Deus enquanto segunda pessoa da Trindade, e não mãe da Trindade toda.

Sobre a questão da Assunção de Maria, penso que a explicação em termos ortodoxos (dormição) é bastante convincente, e cheia de beleza e poesia, conforme já disse. O problema é que o evangélico, a partir de determinado momento na história, passou a encarar a tradição como um fundamento ideológico do catolicismo para combater o protestantismo; mas se esquece que tradição existe antes de existir protestantismo (inclusive, antes de existir o cânon do Novo Testamento); e que os próprios reformadores são bastante devedores, e não negam isso, da tradição. O problema é que, quando se dá a algumas doutrinas o mesmo peso, o mesmo caráter, que, por exemplo, a doutrina da fé em Cristo Jesus, sua Ressurreição, ou da salvação pela graça mediante a fé, o evangélico terá a tendência de a rejeitar "in totum", ou seja, em sua totalidade tais doutrinas, e infelizmente, a doutrina acerca de Maria tem sido uma destas (daí, o padre católico ter dito que Maria não é causa, mas a vítima da divisão das igrejas).

Os que labutam no ensino no meio evangélico, como eu, penso, devem despertar uma simpatia maior pela tradição da igreja em seus colegas; e eu penso que, não no nível devocional, não no nível litúrgico (pelo menos, não em um primeiro momento), mas no nível teológico e especulativo, é possível se chegar à concepções mais ortodoxas acerca do asssunto (o que equivale a dizer concepções anglicanas, pelo menos da alta igreja). Penso que não será possível se chegar às concepções católico-romanas, justamente pela rigidez de tais declarações (e Roma, como gostam de afirmar seus teólogos conservadores, não muda). Não desconheço o esforço de clérigos e pensadores católicos no sentido de amenizar e reiterpretar tais declarações para as tornarem mais, digamos, assimiláveis no meio evangélico; entretanto, sabemos que este é um expediente que o magistério católico através dos séculos não tem aceito muito bem.