quinta-feira, 29 de julho de 2010

Ainda sobre a graça de Deus

"Porque Cristo, quando ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios" (Romanos 5.6).

Deus nos amou com seu máximo amor quando sequer cogitávamos em lhe dar ouvidos.

Fomos absurda e absolutamente amados por Deus quando Cristo deu sua vida por nós.

E o que fizemos para merecer isso? Absolutamente nada!

Esta é a teologia da graça!

Tudo já estava feito e consumado, no nosso caso, antes que sequer existíssemos.

E fomos de algum modo atraídos por este amor, até o ponto de dizemos juntamente com Pedro: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!" (Mateus 16.16). E quase que podemos ouvir juntamente com o referido apóstolo: "Bem aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que te revelou, mas meu Pai que está nos céus" (16.17). Quase posso ouvir também o prólogo do Evangelho segundo João em que o evangelista proclama:

"Mas a todos quanto o receberam, deu-lhes o poder
de serem feitos filhos de Deus, a saber:
aos que crêem no seu nome, os quais não nasceram do sangue,
nem da vontade da carne, nem da vontade do homem,
mas de Deus
" (João 1.12-13).


Daí, podemos dizer com Paulo que a doutrina da graça permeia todo o evangelho, "pois pela graça somos salvos, por meio da fé, e isto não vem de nós; é dom de Deus, não das obras para que ninguém se glorie" (Efésios 2.8-9).

Entretanto, apesar de teologicamente termos consciência de que foi pela graça que nos achegamos ao evangelho, corremos sempre o risco de terminarmos como se dependessemos dos próprios méritos para nos achegarmos a Deus, e isto é uma tentação.

Todas as vezes em que se proclama, ainda que seja feita de forma inconsciente e na melhor das intenções, a mensagem de que devemos conquistar o amor de Deus, decaímos do conceito de graça, e nos afastamos de seus efeitos.

Há tanto ativismo que as vezes nos é passada a idéia (isso, quando não somos nós que a passamos) de que estamos sempre em débito com Deus (claro que, em certo sentido, estamos e sempre estaremos), de que sempre precisamos fazer algo para aplacá-lo em seu descontentamento para conosco. Mesmo por trás da belíssima intenção de querermos fazer "a obra acontecer" pode estar mascarada a mensagem da justificação pelas obras.

Deus não pode nos amar mais do que já nos amou, porque ele já nos deu gratuitamente todas as coisas no Amado. Ele nos deu de si mesmo no próprio Filho, bem como continua nos dando de si no Espírito do qual clamamos "Abba, Pai". Nós não podemos de modo algum fazer com que Deus nos ame mais, porque Ele já nos amou com máximo amor. Tudo o que nós fazemos na obra de Deus e em nossas próprias vida é uma resposta a este grande amor com que nos amou, porque o seu amor foi "derramado em nossos corações". Por isso, mensagens que incutem culpa e a impressão, repito, que temos que constantemente aplacar um Deus sempre descontente e esperando mais de nossa produtividade não procede do Pai, mas sim do mundo. O mundo é assim, descontente, quando não produzimos. Frutos nascem naturalmente. Mas o mundo passa, juntamente com seus maus desejos.

Somos livres para amar, porque fomos amados primeiro; e o nosso amor será sempre um pálido reflexo daquele amor que já recebemos em Cristo Jesus, nosso Senhor. Que Deus nos perdoe se nem sempre agimos com graça para com o nosso semelhante, e que nos ajude a trilhar tal caminho, refletindo um pouco deste amor para com quem está ao nosso redor.