quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A radicalidade na luta contra os tropeços

“Se a tua mão te fizer tropeçar, corta-a; melhor é entrares maneta do que, tendo as duas mãos, ires para o inferno do fogo que não se apaga...” (Mc 9.43).




Assim também falou o mestre acerca dos pés (v. 45), bem como do olho (v. 47), que era melhor amputá-los que, possuindo os dois e tropeçar, ser lançado no inferno.


Não sei se meditamos com seriedade nestes ensinamentos. Isto porque, vivemos em uma sociedade que nos induz a aproveitarmos o máximo de todas as nossas potencialidades. Ou seja, desde que não se contrarie a lei, somos incentivados a “ir onde nossos pés quiserem nos levar”, ou “ver tudo aquilo que os olhos quiserem ver”, ou “pegar tudo o que a vida nos proporcionar”...


Ocorre que, segundo Jesus, os instrumentos do tropeço são nossos próprios membros. Se a tua “mão”, “olhos”, “pés” te fizerem tropeçar... Isso não difere dos ensinamentos de Paulo quando disse que vê em seus membros outra lei que “guerreia” contra a lei de sua mente, e que o faz prisioneiro da lei do pecado (Rom 7.23) .




Tropeçar diz respeito a uma caminhada que se está fazendo, e por algum motivo, esta é atrapalhada, podendo nos levar a cair.
 


As manifestações exteriores destes tropeços tão somente apontam para aquilo que realmente somos.


Entretanto, nem por isso, Jesus dá licença para que se tropece constantemente, pois é melhor entrar sem um dos membros do que ser inteiramente lançado no inferno.


A amputação de que nos fala Jesus é uma hipérbole que pode ser entendida em seu sentido espiritual, não literal (não há fundamento para amputações literais, como a que fez Orígenes, sendo inclusive, desaprovado pela Igreja neste ponto).


A amputação, neste sentido figurado, segundo Cristo, tem que ser radical. Uma renúncia consciente da lei do pecado que governa nossos membros. Isso não pode ser feito sem a ajuda da graça de Deus, e por uma escolha radical e consciente.


Há um duplo movimento para vencer esta batalha. Primeiramente, uma radical renúncia, um negar se a si mesmo; e, em contrapartida, concomitantemente, uma constante entrega e abertura para a graça de Deus, por intermédio da oração, do jejum, da “lectio divina”, da participação nos sacramentos.


O mundo entenderá que negar tais potencialidades macula a nossa humanidade. Alguns, mais radicais, vão até dizer que é uma agressão a ela.

Entretanto, isso não é verdade, por pelo menos dois motivos.


O primeiro é que, segundo a promessa das Escrituras, a renúncia dos pecados tem uma contrapartida na relação com o próprio Deus, que se manifesta no fruto do Espírito, que pode ser resumida em uma grande felicidade interior.

Algo que os místicos e os mestres espirituais da igreja afirmavam sentir em abundância, estando o caminho aí, dado, para quem quiser experimentar. O ser humano não é bobo. Busca o seu próprio bem estar, a sua felicidade. E estes, que se abriram completamente à graça, participaram de tal bem aventurança. Há nisso um “bom egoísmo”, ou uma “boa ambição”, por assim dizer. A busca de Deus é a busca da felicidade humana. Daí, neste sentido, toda teologia é antropologia (Bultmann).


O segundo é que a ascética, ou seja, o exercício espiritual faz com que nos tornemos ainda mais aptos para sentirmos o verdadeiro sabor e o prazer que a vida corretamente ordenada pode nos proporciona. Quem mistura todos os alimentos, e os come de uma só vez, abundantemente, sem disciplina, sem freio, não sente o sabor de cada um deles. Mas se tiver moderação, autocontrole, sentirá o verdadeiro sabor de cada qual. Assim também em todas as áreas da vida. Portanto, a ascética não visa nos desumanizar, mas sim fazer com que estejamos ainda mais na posse de nossas capacidades.


De qualquer modo, deve prevalecer a severidade da afirmação de Jesus. É melhor entrar maneta do que ir “todo o corpo para o inferno”.


Jesus não nega a realidade de tal lugar, chamado Geena, traduzido por inferno. Há uma miríade de explicações, interpretações do que seria tal lugar.

Seja qual interpretação for não é um lugar nada agradável. É estultícia ignorar o ensinamento de Jesus por causa de tais divergências, pois o discípulo o obedece por amor, e não somente por temor. A luta é difícil, é árdua. A contrapartida da severidade do ensino de Jesus é a sua misericórdia, igualmente superabundante, pois Ele é aquele que, se pedimos perdão, setenta vezes sete, ele nos perdoará e estará disposto a nos ajudar a caminhar novamente.




Senhor

A abundância das distrações me dá tédio

Não agüento ficar muito tempo em frente da TV

A maior parte do que se está escrito por aí só existe para chamar minha atenção

Tudo na sociedade é uma desculpa para me fazer comprar, me escravizar

Se passo algumas horas no cinema, me distraio, mas sei que foi em vão

Quando muito tempo em conversa com conhecidos, a sensação inevitável de que falei mais do que devia falar

Se trabalho como louco para acumular bens, adoeço; vejo que não vale a pena

Mas quando estou na tua presença

Há abundância de alegria, de paz e de tranqüilidade

Uma presença serena que me acalma a alma

Que me faz não querer ser nada daquilo de que não sou

De não ter que provar nada a ninguém

Pois é a tua graça que me aprova

Uma impressão de que o eterno irrompeu-se no presente

E em mim se fez morada

E um desejo de que tal impressão permaneça

Mas que eu sei que não irá constantemente durar

Mas quando eu tropeçar

Sei que estarás lá para segurar em minha mão

Pois a tua misericórdia dura para sempre

E a tua graça é melhor que a vida