quarta-feira, 30 de março de 2011

Decepcionados com a Instituição


Por Carlos Seino

Há um número razoável de pessoas que estão desiludidas com a instituição igreja.

E, como fruto desta desilusão, acabam rompendo com a sua denominação, atacando-a através de sites, blogs, livros e outros meios de comunicação.

E não há como negar que profeticamente prestam um serviço à comunidade cristã como um todo.

Isto porque, de fato, a instituição igreja, torna-se, algumas vezes (talvez, na maioria), muito mais um projeto de homens do que do próprio reino.

Estas pessoas, se tornam então como que profetas no deserto, atacando a instituição, e até sugerindo a sua não existência.

Entretanto, será que é possível, caso queiramos agir de forma organizada, comunitária, e racional no mundo, abrirmos mão da instituição?



Tenho alguns motivos para entender que não.

Isto porque, não é possível organizar um grupo sem institucionalizá-lo, conforme já disse em um outro texto Igreja X Instituição .

Instituição, de maneira geral, é a organização de um grupo que se reúne com determinada finalidade. Ela pode ser mais ou menos burocrática, mas terá suas regras próprias, seus costumes, etc, caso queira permanecer no tempo e no espaço por um período que ultrapasse a vida de seus fundadores. Primeiro, existe a realidade histórica do grupo que se reúne; não muito tempo depois, surge a instituição. Ela vai amadurecendo a partir do momento que outras gerações vão vivenciando sua realidade histórica. Obviamente, hoje é possível criar uma instituição jurídica sem grupo, somente em moldes legais. Conheço um cara que criou uma igreja, juridicamente falando, e ele é o único membro... Não é disso que estamos a tratar...

Se estudarmos todos os documentos produzidos pelos cristãos em seus primeiros quatrocentos anos (Carta de Clemente, Epístolas de Inácio, Didaquê, Da Unidade da Igreja de Cipriano de Cartago, Tradições Apostólicas de Hipólito de Roma, etc), veremos uma igreja bem institucionalizada. Mesmo a leitura desapaixonada nos textos do novo testamento nos levará a esta conclusão; a igreja apostólica já é bem institucionalizada, com liderança, supervisão, doutrinas obrigatórias sob pena de anátema, excomunhões, disciplinas, etc. Daí, muitos dos críticos da instituição sugerirem um recuo até um período antes dos apóstolos, a procura de uma religião ideal em Jesus. Entendem que os apóstolos, ou a igreja primitiva, em muitos pontos, se desviaram do seu primitivo mentor.

Não tiro os méritos deste tipo de trabalho crítico histórico, entretanto, todas estas observações que faço são no sentido de demonstrar que não houve este tempo em que a igreja fosse totalmente não institucionalizada.

Um outro aspecto, que em minha opinião, faz malograr a idéia de um cristianismo não institucionalizado, é o fato, me parece irrefutável, de que tudo o quanto temos em termos teológicos e práticos, o grande depósito de nossa fé, nos foi legado pela instituição cristã, em alguma de suas vertentes. Não são algumas coisas que recebemos por tradição (“paradosis”), mas sim, praticamente tudo. Muitos dos críticos que conheci (e conheço) se formaram em Universidades e escolas patrocinadas por Igrejas (Católica, Metodista, Presbiteriana, etc). Geralmente os decepcionados com a instituição foram formados nela, e as criticam com os elementos que dela receberam.

Não quero dizer com tudo isso que não seja possível viver uma piedade, um cristianismo não institucionalizado, tão somente em forma de movimento. Nestes, há muita gente boa, talvez fazendo mais pela causa de Cristo do que outros fiéis à instituição que frequentam. Mas a organização de um grupo que queria se perpetuar no tempo provavelmente passará por algum tipo de institucionalização. Podemos escolher se ela será “pesada” ou “leve” (Ariovaldo Ramos). Mas não abandoná-la, caso queiramos atuar no mundo de forma racional. Se for bem gerida, poderá haver maior organização da alocação de recursos para obras sociais e missionárias, bem como pedagógica. Também maior inserção social, pois a maior parte dos grupos sociais (ou todos) se relaciona via instituição. É um ponto de encontro, um lugar em que pessoas com algum tipo de necessidade ou desespero podem recorrer; o que observo semanalmente em minha prática eclesial.

A instituição é um meio encontro, um instrumento; não um fim em si. Ela estará sempre sofrendo a tentação de se tornar rígida, burocrática, demônica (Paul Tillich). Não foram poucos os que começaram muito bem sua jornada, depois utilizaram suas instituições para fins ilícitos e egoístas. Penso que é um risco que nunca deixaremos de correr.

Quanto aos que estão “de fora” da instituição (se bem que, totalmente de fora, nunca estarão, pois sua crítica já prova sua dependência dela), penso que farão bem se mantiverem uma ligação com Jesus, através da “lectio divina” (leitura, meditação, oração e ação, conforme as Escrituras). Muitos homens e mulheres, durante a história, viveram à margem da instituição, mas fizeram muito pela causa de Cristo (Atanásio, Crisóstomo, Wesley, Tolstoi, entre outros milhares de anônimos). E todos nós, em algum momento, corremos o risco, seja de abandonar, seja de sermos abandonados pela instituição. Mas certamente, nunca seremos abandonados por Cristo, pois este nos ama com todo o seu ser.

LEIA TAMBÉM:

Igreja X Instituição

Igreja, na visão de um católico romano

Há uma instituição entre nós