quarta-feira, 9 de março de 2011

Voltaire acerca dos quakers


Li novamente hoje parte de uma obra que acho bastante interessante. Trata-se de "Cartas Filosóficas" de Voltaire, publicado pela Editora Landy. Em uma delas, ele relata uma visita que fez aos quakers. Os quakers são um grupo criado após a Reforma Protestante, que existe até os nossos dias, totalmente pacifista, que busca viver em comunidade os princípios ensinados por Jesus no sermão do monte.

Acerca da impressão que teve do homem que o atendeu, Voltaire descreveu:

"O quaker era um velhinho vigoroso que nunca adoecera, porque jamais conhecera as paixões nem a intemperança: nunca vi na vida aparência mais nobre nem mais envolvente do que a dele" (p. 21).

O que é interessante é que Voltaire é um dos chamados céticos de seu tempo, embora fosse cristão. Realmente, o velho quaker exerceu uma impressão positiva no mencionado filósofo.

Os quakers recusavam-se a chamar qualquer pessoa pelo título, ou pela segunda pessoa do plural (vossa eminência, vossa santidade, etc). Eles o chamavam por "tu", por "você". O motivo foi dito pelo velhinho da seguinte forma:

"...tu me parecias demasiado instruído para ignorar que na época de Cristo nenhuma nação caía no ridículo de substituir o plural pelo singular: Dizia-se a César Augusto: eu te amo, eu te rogo, eu te agradeço; não se importava mesmo se o chamassem de Senhor, Dominus. Foi só muito tempo depois dele que os homens ousaram-se tratar pela segunda pessoa do singular, como se fossem duplos, e usurpar os títulos impertinentes de Grandeza, de Eminência, de Santidade, que vermes davam a outros vermes, garantindo-lhes que são, com profundo respeito e com infame falsidade, seus mui humildes e mui obedientes criados..." (p. 25).

Pois é. Nós nem nos damos conta que tratamos uma autoridade pelo plural... Que doidera. Democraticamente falando, o quaker está completamente correto, em minha opinião. É que, como ouvi certo pregador dizer, nós gostamos dos nossos "brinquedinhos", no caso, os nossos títulos...

Outra coisa que os quakers não faziam, e não fazem até hoje, é não jurar.

Acerca deste costume, o bom velhinho, descrito por Voltaire, mencionou:

"...nunca fazemos juramentos, nem mesmo em justiça; julgamos que o nome do Altíssimo não deve ser prostituído nos miseráveis debates dos homens. Quando precisamos comparecer perante os magistrados pelos casos alheios (pois nunca somos processados), afirmamos a verdade com um sim ou um não, e os juízes acreditam em nossa simples palavra, enquanto muitos cristãos cometem perjúrio sobre o Evangelho" (p. 26).

Mas lindo mesmo é ler os motivos pelos quais os quakers não iam a guerra (confesso que me emocionei quando li):

"Não vamos nunca à guerra; não porque temamos a morte, pois, pelo contrário, abençoamos o momento que nos une ao Ser dos seres; mas porque não somos tigres, cães, mas sim homens, cristãos. Nosso Deus que ordenou amar os nossos inimigos e sofrer sem murmurar, com certeza não quer que atravessemos o mar para ir estrangular os nossos irmãos, porque assassinos vestidos de vermelho, com chapéus de sessenta centímetros de altura, recrutam cidadãos alardeando com duas batidinhas numa pele de burro bem esticada; e quando depois das batalhas ganhas toda Londres brilha iluminada, quando o céu se inflama de girãndolas, quando o ar retine o ruído das ações de graças, dos sinos, dos órgãos, dos canhões, gememos em silêncio por esses assassínios que causam a alegrai pública" (p. 26).

Pois é.... Palavras para serem meditadas...