quinta-feira, 21 de abril de 2011

O uso da razão no labor teológico


Esta semana, dei aula a um grupo de estudantes de teologia acerca do tema “Fontes da Teologia”.

Entendo que, como “Fontes de Teologia”, propriamente cristã, as Sagradas Escrituras e a Tradição.

Isto porque, falando de forma resumida, as Escrituras contém os documentos principais, fundamentais da fé judaico-cristã (tudo o quanto é necessário à salvação), e a tradição consiste no labor teológico e prático elaborado pelos cristãos no decorrer dos séculos.

Depois, passei a ensinar o que entendo como fontes auxiliares (porém não dispensáveis) do labor teológico, e falamos acerca da razão, em sua relação com a teologia. Conversamos em sala acerca de um conceito bastante simples da razão, como “capacidade de raciocínio de acordo com o conhecimento que se tem”.

Então fiz um desafio para a sala. Disse para que eles interpretassem os vers. 6 e 7 do capítulo 1 de Gênesis.

Se o leitor bem se lembrar, o texto nos diz que Deus fez separação entre “águas e águas”, e tal separação chamou de “extensão”, e a esta “extensão” chamou “céu”. Outras traduções trazem a palavra “firmamento”. Esta “extensão” ou “firmamento” fazem separação entre as águas “de cima” e as águas “de baixo”. Fiz um esboço na lousa acerca de tal relato. Isso significa então que, no relato da criação, há algo que separa "as águas de cima das de baixo", além de Deus ter reunidos todas as águas de baixo em um único lugar, fazendo surgir uma porção seca. Em relação à porção seca, chamou “terra”, e a porção das águas reunidas em um único lugar,

Pedi para que, de posse da primeira fonte (Escrituras), e com o eventual conhecimento da segunda fonte (tradição), os alunos aplicassem a razão (capacidade de raciocínio de acordo com o conhecimento que se tem) ao mencionado texto.

O que eu percebi foi uma enorme recusa quase unânime da sala em discordar da narrativa literal do texto. Com exceção de um aluno (e isso, só depois de um tempo), a sala recusava-se a dar uma interpretação mais simbólica, poética ou mítica ao texto mencionado.

O que pude perceber, de modo geral, foi um temor em aplicar a razão, conforme conceituei. É compreensível, visto que geralmente, somos educados em uma visão mais literalista. Nosso apreço pelas Sagradas Escrituras nos faz olhar com desconfiança de qualquer interpretação menos literalista, mais simbólica, ou mesmo mítica, por assim dizer.
 

E o curioso é que esta atitude se distancia do espírito da Reforma, pois esta, entre outras mudanças, "permitiu" o uso da razão como ferramenta para uma hermenêutica bíblica, através do livre exame das Escrituras, dando ao teólogo o direito de discordar da interpretação dominante (pelo menos, em teoria...). Entretanto, a interpretação fundamentalista, literalista, tem impedido, e até causado temor naqueles que pensam em adotar tal procedimento. Deixa a teologia estéril, e corre o risco de colocar pedras de tropeço desnecessárias no anuncio do que é principal. Deus não daria o dom da razão aos seres humanos, para depois os impedir de usá-la.