quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Teologia e Prática

Algo que escuto constantemente dos meus pares evangélicos é que teologia não é importante, mas sim a prática. Já ouvi isso de apóstolos, pastores, presbíteros, evangelistas e crentes comuns.

Discordo completamente desta afirmação.

Isto porque, não existe nenhuma prática eclesial relevante sem teologia. Nenhuma mesmo.

Quando um evangelista sai com a Bíblia embaixo do braço, encontra alguém na rua, e diz para tal pessoa “aceitar Jesus”, faz isso, AINDA QUE NÃO SAIBA (e geralmente não sabe) embasado em séculos de teologia.

Primeiramente, o fato de sair com a Bíblia embaixo do braço significa que no passado, algum teólogo defendeu o direito das pessoas terem acesso direto às Escrituras, o que demandou anos de discussão, e nem sempre das mais pacíficas. Faríamos bem de lembrarmos das milhares de mártires anabatistas que morriam por levarem porções das Escrituras escondidas em suas roupas.

Outra coisa: quando o tal evangelista diz para alguém “aceitar Jesus”, há pelo menos dois pressupostos: que tal pessoa será salva pela fé em Cristo, e que terá livre arbítrio para fazê-lo. A primeira doutrina é o famoso “sola fides”, que custou a Lutero e aos demais reformadores a excomunhão da Igreja Romana, perseguições e martírios incontáveis. Foram séculos de discussão sobre este assunto, e que ainda não terminou. Foram anos desmontando todo o aparato teológico e eclesial da igreja católica, para o bem, ou para o mal. A segunda doutrina custou a “Jacob Arminius” sua condenação, bem como dos seus seguidores no Sínodo de Dort pelos calvinistas de então, que repudiaram a doutrina do livre arbítrio e da universalidade da graça.

E ainda: quando o tal evangelista sai com a Bíblia embaixo do braço, terá que levar em consideração que está com um conjunto de livros que levou pelo mais de mil anos para ser formado. Foram muitas discussões teológicas e doutrinárias, envolvendo centenas de bispos, presbíteros, doutores e cristãos para se formar um consenso acerca do que deveria ser canônico ou não. É muito fácil, dois mil anos, pegar um produto pronto e dizer “não precisa de teologia não, basta a prática...”

Há um tipo de ousadia cuja mãe se chama ignorância. Daí, ser uma missão de caridade instruir tal “mãe” para que gere filhos ousados, porém, também com entendimento.