terça-feira, 8 de novembro de 2011

Minhas dificuldades com o sistema calvinista de pensamento


Sou admirador de muitos autores calvinistas, e no que diz respeito em ouvir e ler material teológico evangélico, a maior parte do meu tempo e dedicação tem sido em ler autores desta linha de pensamento, como o próprio Calvino, Spurgeon, Loyd-Jones, John Pipper, Berkhof, entre outros. Particularmente, eu tenho a impressão de que o protestantismo sério, do ponto de vista prático e teológico, tem sido majoritariamente calvinista, e até poderei um dia tornar-me um também.

Entretanto, tenho algumas dificuldades com este sistema teológico de pensamento, principalmente no que diz respeito à doutrina da predestinação, que ensina que somente um grupo de eleitos será salvo, enquanto que os demais serão largados ao seu próprio destino, que é o inferno eterno.

Isto por conta da teologia propriamente dita ensinada nas Escrituras, qual seja, acerca do próprio estudo da pessoa de Deus.

Por exemplo, as Escrituras dizem que Deus quer que todos sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade (1 Tim 2.4).

Não faz sentido a Bíblia afirmar que Deus quer uma coisa e fazer outra diferente, em minha opinião. Não faz sentido Deus querer que todos sejam salvos e somente salvar alguns.

De acordo com o sistema calvinista, Deus é soberano, sua vontade é irrevogável e irresistível. Ou seja, se Deus quisesse, poderia predestinar a todos, mas se não o faz, é simplesmente porque não o quer.

Sei que Deus não é obrigado a fazer nada por nós, e que se não quisesse, não precisaria sequer nos enviar um Salvador, e Ele, Deus, continuaria tão soberano e amoroso como sempre foi.

Entretanto, Ele nos mandou um Salvador, e caso quisesse, poderia aplicar, de acordo com o sistema calvinista, a salvação a todos; se não o faz, é porque não o quer.

Sei que Deus é amor, mas que também é justo, e que se aplicar estritamente sua justiça, ninguém seria salvo. Mas para mim, não faz sentido as Escrituras dizerem que Ele amou o mundo (João 3.16), que Cristo é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas pelos do mundo todo (1 Jo 2.2), e ainda assim, ele limitar sua graça para um grupo de eleitos.

Segundo o sistema agostiniano-calvinista, todos nascem pecadores, já com a natureza corrupta, já com a culpa imputada pelo pecado. Ora, ninguém tem culpa (lato senso) por nascer assim, pois já é uma condição herdada. Se não tenho culpa, por exemplo, de ter nascido pobre, ou sem um órgão, quanto mais por ter nascido pecador. E nem adianta dizer que o homem ratifica a sua condição herdada pelos pecados que comete, pois, por ter herdado uma natureza corrompida, não poderia fazer outra coisa senão pecar em algum momento de sua vida.

Portanto, a lógica calvinista é: se todos estão mortos por conta da condição pecaminosa, Deus tem que predestinar e vivificar alguns. Os demais, continuarão seguindo o curso natural de sua vida, e Deus não tem culpa por isso. Se Ele não exercitar sua misericórdia para com alguns, todos iriam perecer no inferno.

Por analogia, é como se houvesse um grupo de pessoas se afogando em um oceano após um naufrágio, e passasse por ali um navio, mas o comandante escolhesse alguns para serem resgatados e deixasse os demais ali para morrerem afogados, ainda que no barco houvesse espaço para todos. Todos iriam morrer de um jeito ou de outro, o capitão não teria culpa nenhuma por isso, de acordo com tal raciocínio, pois salvou alguns. Assim também, dizem os calvinistas, embora o céu seja grande o suficiente para todos, Deus não escolheria, por um ato de soberania, a salvar todos. Ele salva alguns, e outros, cumprem o seu destino, se "afogam".

Vejam; sei que posso estar humanizando demais o pensamento teológico nesta questão, querendo aplicar a Deus algo que pensamos em termos estritamente humanos, mas se assim o faço, é por misericórdia também, por amor à humanidade, e não por rejeitar a Deus. Eu, particularmente, não tenho condições intelectuais, pelo menos por enquanto, de aceitar o fato de que Deus predestina alguns para a salvação e deixa os demais seguirem o próprio rumo de sua vida rumo ao inferno embora nutra o máximo respeito aos calvinistas. Talvez aqui haja um paradoxo entre a soberania divina e a liberdade humana, muito difícil de ser esclarecida, se é que é possível.