segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

FONTES DA TEOLOGIA

FONTES DA TEOLOGIA

(Introdução à Teologia: aula 3)



Fonte tem a ver com o princípio, com o “instrumental” utilizado para, no nosso caso, começarmos a fazer teologia. É de onde “flui”, por assim dizer, a teologia. Obviamente, que o refletir teológico cristão parte de Deus, este sim, fonte de toda sabedoria e conhecimento. Entretanto, quando falamos de fontes da teologia, pensaremos nos instrumentos que temos à nossa disposição para o labor teológico. As fontes da teologia são:

Sagradas Escrituras: as Escrituras são o conjunto de livros que compõem o Antigo e o Novo Testamento. A fé judaico-cristã não começa necessariamente pelo livro, e sim, pela tradição oral. Entretanto, com o tempo, tudo vai sendo registrado nas Escrituras, e estas passam a ser a fonte principal da teologia cristã, pois a autoridade de quem escreveu os livros bíblicos é reconhecidamente maior do que a igreja que os recepcionou. A teologia evangélica reconhece nas Escrituras a sua autoridade máxima de fé e prática, pois são os documentos fundamentais da nossa religião. Todo teólogo cristão deve procurar aumentar cada dia o seu conhecimento das Sagradas Letras, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Ler as Escrituras todos os dias. Um postulado máximo da Reforma Protestante é que as Escrituras “contém todas as coisas necessárias à salvação e um reto viver”. A postura protestante é de não exigir de ninguém a crença em uma doutrina ou o exercício de uma prática que não possa estar embasada nas Escrituras. O que torna a autoridade das Escrituras de indescritível importância para os cristãos é o fato de elas revelarem Deus ao mundo, sua natureza trinitária (Pai, Filho e Espírito Santo), seu plano de salvação para a humanidade e sua vontade. As Escrituras, conforme as temos, são suficientes para tal finalidade.


Tradição: conjunto de práticas, costumes e doutrinas da igreja no decorrer da História. Juntamente com as Sagradas Escrituras, vai se desenvolvendo uma tradição interpretativa destas mesmas Escrituras, vão se formando costumes, liturgias e práticas durante a história. Tudo isso é tradição. No campo confessional, a igreja já no início do segundo século desenvolveu o credo dos apóstolos para combater a doutrina gnóstica. No início do sec. IV, o Credo Niceno Constantinapolitano. Com a separação entre o Ocidente e o Oriente, em 1054, passam a existir separadas duas grandes tradições na cristandade (Igreja Romana e Igreja Oriental). Após, no sec. XVI, o ocidente cristão conhece seu momento mais dramático na história, quando ocorre a Reforma Protestante, e, a partir de então, surgem outras tradições (Anglicana, Reformada, Luterana, Anabatista, etc), cada qual com seus artigos e confissões de fé. A leitura das Escrituras nunca é neutra; sempre está filiada a alguma tradição interpretativa, e mesmo sem perceber, geralmente lemos a Bíblia com a ótica da tradição a qual pertencemos.

Cultura: a cultura é o conjunto de costumes, práticas e tradições de uma determinada sociedade. Em um sentido bem amplo, é tudo aquilo que foi transformado na natureza pela intervenção humana. Quando alguém faz teologia, precisa levar em consideração tanto o seu contexto cultural como o do texto bíblico que está analisando, para aplicá-lo adequadamente em seu tempo. O estudo da cultura é importante inclusive, por exemplo, para saber se determinados textos das Escrituras eram aplicáveis à determinado momento histórico, ou se são validos perpetuamente. Por exemplo, as Escrituras dizem que a mulher, para orar e profetizar deve usar véu (1 Cor 11.5-6). De fato, muitas igrejas pentecostais cumprem tal preceito. Entretanto, a grande maioria das igrejas, após um estudo histórico e cultural da situação em que o texto foi escrito, chegou a conclusão de que tal preceito não precisaria ser observado em todos os tempos e lugares. Será sempre um desafio para a igreja pensar a teologia juntamente com a cultura. Há outros exemplos culturais nas Sagradas Escrituras que você se lembraria neste momento?

Razão: um significado bem amplo seria a capacidade de raciocínio conforme o conhecimento que se tem, levando-se em consideração que o conhecimento humano não é algo estático, mas em contaste crescimento. O teólogo não pode evitar o uso da razão em seu labor teológico. Por exemplo, somente o fato de ler as Sagradas Escrituras, interpretá-las, já envolve o uso da razão, seja para ser alfabetizado, ou conhecer os idiomas originais das Escrituras, utilizar os meios básicos de interpretação de um texto, etc. Outro dado que deve ser levado em consideração no labor teológico é o próprio saber científico. Por exemplo, é possível que tenha havido um tempo em que pensar a questão do reino dos céus, alguém pensasse que era um lugar localizado acima das nuvens, assim como o inferno, debaixo da terra. As Escrituras constantemente utilizam a idéia de um céu no alto. Entretanto, com o conhecimento que se tem hoje, não se pode mais pensar no céu em um lugar no alto, pois com o conhecimento do universo que se tem, não é possível mais falar de algo no alto ou embaixo.

Experiência: determinado fato ou ocorrência que acabará por influenciar no labor teológico da igreja. Às vezes, a experiência pode ser fundamental no pensamento teológico de alguém. Vamos citar a experiência do apóstolo Paulo, por exemplo. Sua conversão ocorreu antes de sua reflexão teológica cristã, por óbvio. Será que sua experiência de conversão não influenciou suas idéias? Sua conversão está descrita em Atos 9. Paulo era homem versado na lei, um mestre, pode-se dizer. Naquele momento, ele perseguia os cristãos, quando de repente, teve a experiência do Cristo. Foi se conhecimento da lei que o levou a salvação? Foi alguma boa obra que fazia? A resposta a estas questões é obviamente negativa. Por isso, posteriormente, quando Paulo escreve às igrejas ele diz que o ser humano não é salvo por cumprir a lei (Gálatas 2.15), e nem pelas obras (Efésios 2.8-9), mas sim pela fé em Cristo. Paulo é tão ciente do fato de que era salvo por graça que até entendia que sua salvação e vocação se deu quando ainda estava no ventre de sua mãe (Gálatas 1.15-16).

John Wesley foi talvez um dos únicos homens que a igreja produziu à altura teológica e com o mesmo ardor missionário de Paulo. Ele já era um presbítero quando, em um determinado dia, entendeu que todos os seus pecados haviam sido perdoados em Cristo Jesus, e sentiu também uma “força” que o ajudava a não pecar, e que produzia nele a sensação de “coração aquecido”. Tal experiência virou uma doutrina de que mesmo o cristão estava sujeito a receber uma segunda benção depois da conversão, que seria a santificação total, o que mais tarde veio a ser conhecida como a doutrina wesleyana da “perfeição cristã”.

Tal segunda experiência, tempos depois veio a influenciar a doutrina pentecostal do “Batismo com o Espírito Santo”. Quando alguns crentes começaram a ter a experiência do Pentecostes (falar em línguas), entenderam que se tratava de uma segunda benção que o cristão deveria buscar, ou seja, ser revestido do Espírito Santo.

Há uma regra teológica que ensina que experiências não podem servir de base para a criação de doutrinas; entretanto, é muito difícil separar o ser humano que pensa de sua própria experiência.

Conclusão:

Todas estas fontes são importantes, e estão interligadas. Quando alguém lê a Escritura, o faz a partir de determinada tradição hermenêutica (interpretativa). O teólogo é alguém inserido em determinada cultura, e estuda também a cultura do texto que está sob análise. Para tanto, utilizará sua capacidade de raciocínio (razão), e influenciado pela sua própria experiência, também irá gerar uma determinada prática a partir de suas conclusões teológicas. Entendemos que, quanto mais alguém estiver “equipado” com tais conhecimentos, maior a possibilidade do Espírito Santo o utilizar no estudo e na difusão da Palavra. Pessoas com um alto grau de erudição bíblica e teológica foram muitíssimo utilizadas por Deus para difundir o evangelho no mundo (Paulo, Santo Agostinho, João Crisóstomo, Lutero, Calvino, John Wesley, Jonathan Edwards, Charles Spurgeon, Charles Finney, John Stott, entre tantos outros). A idéia de que erudição e espiritualidade, ou conhecimento e prática estão sempre em oposição é falsa, e só prejudica a causa do evangelho.