sábado, 5 de maio de 2012

O cripto triteísmo - 'Teologia' X Soteriologias ocidentais...



Em termos de estudos religiosos Cristãos, reservavam os antigos o termo 'teologia' aos assuntos relacionados com a Natureza divina. Aos demais temas ou assuntos reservavam o termo 'Economia'.

Em termos de 'teologia' na acepção original e primitiva do termo fracassou a Cristandade miseravelmente. A principio fez alguns progressos, pois partindo da doutrina da Encarnação e da divindade do Filho, esboçou a doutrina da Trindade.

Posteriormente todavia, paralisou ou como se diz 'estacou' cessando de avançar...e por deixar de avançar permaneceu mal elaborada e, de certo modo, como demonstraremos, 'triteista'... Eis porque, no tempo presente, certas parcelas da Cristandade tem renunciado a doutrina tradicional da Trindade para volver a teoria da transcendência absoluta, nos moldes do judaismo e do islamismo.

Gostemos ou não, é perceptível que parte dos Cristãos esta descontente coma doutrina tradicional e confusionista da Trindade; doutrina que sob aspecto algum contempla as exigências da razão humana... mesmo quando lhe adicionamos fortes doses de 'mistério'...

Pois uma coisa é ser mistério e outra, bastante diferente, é ser tolice. Converter tolices em mistérios parece-me muito pouco reverente...

Efetivamente a capacidade com que certos Cristãos recusam-se a raciocinar ou a refletir sobre os elementos da fé assombra-me.

Querem porque querem uma fé cega, fé de morcegos e toupeiras e não uma fé esclarecida e bem fundamentada, esta somente digna de seres racionais como o homem.

A esperança de muitos não tem qualquer razão...

Mas nós, fiéis ao mandamento apostólico desejamos dar as razões de nossa bem aventurada esperança não somente aos neo arianos, mas antes de tudo aos ateus, materialistas e indiferentes; convencidos de que todos os cristãos adoram três deuses ou um deus que é dividido em três partes, que convenientemente recebem o nome de pessoas.

O questão principiou quando o 'Pai' revelado no Senhor Jesus Cristo, foi identificado com o 'javé' da antiga aliança, passado já pelo filtro platônico dos fariseus e colorido com as fortes tintas da transcendência absoluta.

Para a clientela farisaica ou judaica admitir a Encarnação de Deus, ou seja do Pai, juntamente com o Filho e o Espírito Santo, na única pessoa de Jesus Cristo; constituía não apenas uma impossibilidade em termos teológicos, mas uma autêntica blasfêmia.

Nem a mente judaica, nem a mente apostólica; envenenadas pela transcendência absoluta, podiam resignar a ideia de um Deus total o plenamente encarnado que assumisse a natureza humana integralmente...

Imaginaram então duas partes de deus ou 'pessoas': a do Pai, transcendente, superior, invisível; situada fora da pessoa encarnada do Filho e acima dele; e uma pessoa menor ou subordinada: a do Filho, o qual encarnou-se separadamente no unigênito Filho da Virgem.

Eis porque a 'teologia' até hoje não saiu disto...

De 'pessoas divinas' que constituindo um único Deus, sem cisão ou separação; separam-se de fato no momento da encarnação, na medida em que apenas o Filho - não o Pai, nem o Espírito Santo - assume a natureza humana na pessoa de Jesus Cristo. Importa isto em dizer, e a Cristandade pensante sabe-o muito bem - que apenas o Filho se fez homem.

No entanto se apenas a pessoa do Filho se fez carne, com exclusão das pessoas do Pai e do Espírito Santo, houve separação ou cisão entre as tais pessoas divinas; donde se infere muito logicamente serem 'três entidades autônomas' ou seja três deuses...

Estamos já no campo do politeísmo, o qual; com o ateismo e o transcendentalismo absoluto; constitui um equivoco gravíssimo. Alí não há Ser, aqui o Ser - sendo multiplo - não é ilimitado e infinito e mais além sendo limitado pelo mundo é imperfeito...

A única solução para o problema é o panenteismo, numa perspectiva verdadeiramente trinitária e cristocentrica.

Queremos dizer com isto, que o vezo farisaico deve ser posto de lado e que Jesus deve passar a ser encarado como a Encarnação do Deus Uno e Trino ou seja da Santa Trindade e não apenas do Filho.

É a única resposta digna que a Cristandade pode dar ao neo arianismo.

Não é mais viável situar outros deuses ou entidades para além de Jesus ou superiores a eles. Se Jesus é Deus encarnado, é, por assim dizer a encarnação da Santa Trindade e não a Encarnação duma cisão, parte ou parcela de Deus; porque Deus, sendo Uno, não conhece parcela ou divisão.

Três pessoas de fato fruem da mesma natureza indivisível, sem que tal fruição se dê nos termos materiais, humanos e sensíveis de divisão. Assim as pessoas divinas são distintas quanto a sua procedência, mas idênticas quanto a fruição do Uno, distintas mas de modo algum separadas...

Destarte não pode haver qualquer Pai 'fora' de Jesus, fora da pessoa de Cristo ou acima dele. O Pai e o Espírito possuem existência verdadeira e real, mas com o Filho, na unidade dele, logo, presentes na pessoa de Jesus Cristo.

Por outro lado se admitimos que o Pai e o Espírito estão em Jesus com o Filho - o que a teologia não pode deixar de admitir revelando toda sua miséria - não podemos deixar de inferir que juntamente com ele fizeram-se homem, encarnando-se verdadeiramente.

Afinal o que não repugna ao Filho não poderia repugnar ao Pai ou ao Espírito a menos que admitissemos a inferioridade do mesmo...

A Encarnação do Filho não só torna possível como necessária a encarnação do Pai e a encarnação do Espírito Santo. Deixou a igreja de afirmar esta doutrina em alto e bom som por um único motivo: a herança cultural legada pelo judaismo farisaico, herança face a qual a encarnação de javé era inaceitável e segundo a qual jesus era uma divindade menor ou inferior a semelhança dos semi deuses do paganismo.

Não atinou a Cristandade exitante que ao fazer concessões ao judaismo forjava um deus em ou com e um deus fora, situado além; isto é dois deuses...

Da Unidade divina infere-se a concentração ou presença da Trindade na pessoa de Cristo Jesus...

Quanto a Ortodoxia Oriental, ficou o problema latente, e de certo modo aberto a especulação reverente...

O ocidente no entanto, levado por suas 'soteriologias' exóticas, agravou -o; chegando, como já dissemos ao triteísmo puro e mergulhando no politeísmo vulgar.

De certo modo o Oriente inclinou-se a pensar a salvação como uma obra de amor efetuada pelas três pessoas.

O ocidente no entanto, como é assaz sabido, perdeu este precioso sentido e imaginou a salvação em termos de divisão de vontade entre as pessoas divinas. O que implica em admitir um deus com vontades diversas e contraditórias...

A teologia latina, romana e protestante, como um todo, tem feito gala desta doutrina ímpia e imposto sua profissão como lídima expressão da ortodoxia.

Consiste ela em opor as vontades do Pai e do Filho, apresentando o primeiro como uma pessoa - ou melhor deus - ofendido, iracundo e vingativo; e o Filho, na pessoa de Jesus Cristo, como deus bondoso que sendo imolado, satisfaz aos instintos vingativos do Pai.

Tal a doutrina de Anselmo: deus mata deus para aplacar deus... puro sadomasoquismo.

Posto esta que se as vontades do Pai e do Filho são opostas é porque há caracteres ou temperamentos opostos... e se há temperamentos opostos, há separação de personalidades, ou melhor de seres: há deuses em conflito e não pessoas que fruem dum mesmo ser divino e que comungam da mesma e idêntica vontade redentora.

Certas correntes teológicas do papismo lograram superar este terrível obstáculo ao exercício da fé, atribuindo a sede de vingança a toda Trindade, inclusive ao próprio Jesus Cristo, e a vontade salvífica a figura maternal da Santa Virgem. Atenuou-se de certo modo a tensão teológico/soteriológica; sem que o cárater divino auferi-se qualquer benefício...

Pois um deus todo iracundo e vingativo, continua sendo tão pouco divino quanto meio deus vingativo ou um deus em conflito.

Sem embargo de tais atenuantes a freira polonesa Faustina kolwaska, com suas visões doentias, renovou tais erros com bastante sucesso. Segundo apresenta insistentemente o pai como um ser iracundo, odioso e vingativo sempre disposto a punir o gênero humano e a precipita-lo no famigerado inferno; enquanto o Filho 'bondoso' sustenta-lhe a 'mão' impedindo-o de torturar os mortais, apenas por um tempo...

Outro não é o discurso dos pastores protestantes que tantas e tantas vezes tive ocasião de ouvir quando criança: O Pai desejava punir ou castigar os mortais até que o Filho aplacou-o com seu sangue.

Lutero chegou a ensinar que na cruz o Filho tornou-se odioso ao Pai e foi castigado segundo a conta da justiça, Calvino que experimentou os tormentos do inferno e Agrícola outras tantas blasfêmias...  Diante de tais lucubrações somos levados a perguntar: que unidade resta entre as pessoas divinas se este pai e este filho são o único e mesmo deus???

Perdoem-me os romanos e protestantes mas sou incapaz de perceber qualquer liame ou vinculo entre as vontades das pessoas divinas neste espetáculo do Pai martirizando e punindo o Filho ou do Pai desejando castigar os mortais e do Filho aplacando-o.

Onde fica a harmônia ou a união de vontades exigida pela perfeição de um mero ser humano para não falarmos num Deus???

É nosso Deus um deus com vontades multiplas e conflituosas??? Podemos apresentar este deus aos judeus, muçulmanos ou incrédulos???

Do contrário penso que a única solução possível é renunciar a velha e embolorada doutrina da expiação e   
apresentar a reconciliação do gênero humano como fruto da vontade e da ação das três pessoas divinas.

É necessário, além disto, reconhecer que as três pessoas se fizeram inseparavelmente presentes em Jesus Cristo, embora só se manifesta-se a pessoa do Filho.

Do contrário Jesus Cristo não teria ousado dizer a Filipe: "A TANTO TEMPO ESTOU CONVOSCO E AINDA NÃO PERCEBESTE? QUEM ME VIU VÊ O PAI. PORQUE IMPLORAS - MOSTRA-NOS O PAI? ESTOU NO PAI E O PAI EM MIM." 

Seja-nos permitido dizer que Jesus jamais falará com tanta clareza como neste trecho, e que a Cristandade tem se recusado a aceita-lo em sua plenitude até o presente dia.

Retiremos pois os outros deuses da face de Jesus Cristo e elimine-mo-los todos.

Viva somente Jesus Cristo fiel manifestação do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Deus único e verdadeiro que se fez homem para reconciliar e elevar o gênero humano.