domingo, 16 de junho de 2013

Teologia da Evangelização



Trata-se de esboço de uma aula que ministrei acerca do tema "Teologia da Evangelização".
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O que significa “evangelho”?

Grego Clássico: Evangelho (substantivo) = (Euaggelion)(euangélion); Evangelizar (verbo) = Euaggelizw (euangelizo).

Significados: recompensa ao mensageiro ou ação de graça aos deuses pela boa notícia; boas novas ligadas ao imperador; boas novas.

Antigo Testamento (besorâh): 1Sm 4.16-17; 1 Sm 31.9; 2Sm 18.19-20; Jr 20.15; 2Sm 18.24-27; Is 52.7; Sl 40.9; 96.1-13; Is 40.9; 41.27; 52.7; 95.1; Is 61.1-3; Is 60.6

Recompensa por boas obras (2 Sm 4.10; 18.31). Vitória do Senhor e boas novas em íntima relação com o mensageiro (Sl 40.9-10; 68.11, Is 61.1-2).

Septuaginta: Euaggelion (euangélion): 2 Sm 4.10; 18.22,25; euaggelizomai  (euangelízomai) é usado teologicamente: Sl 40.9; Sl 96.2; Is 40.9; 52.7; Is 62.1.

Novo Testamento (algumas citações): Mc 1.15; 8.35; 14.9; 16.15; Rm 1.1; 1.16; 11.28; 15.19; At 15.7; 20.24; Ef 1.13; Ef 6.15; Ap 14.6

O verbo evangelizar (euvangelizo) e o substantivo evangelho (euangelion) – e os seus cognatos “evangelismo”, “evangélico”, “evangelista”, “evangelização” – são palavras provenientes do grego, que, passando pelo latim, chegaram ao nosso idioma de forma transliterada.

Toda a história de Jesus é o evangelho (Mc 1.1);
É o evangelho do Reino (Mt 4.23; 9.35);
É a mensagem a ser pregada no mundo todo, evento intimamente relacionado com a morte de Cristo (Mt 26.13);
É o Evangelho de Deus (Rm 1.1; 1 Ts 2.9);
Evangelho da promessa (At 13.32);
Evangelho da graça de Deus (At 20.24);
Evangelho da glória de Cristo (2 Co 4.4);
Evangelho da glória de Deus (1 Tm 1.11);
Evangelho da nossa salvação (Ef 1.13);
Evangelho da paz (Ef 6.15);
Evangelho eterno (Ap 14.6);
O Evangelho é poder de Deus (Rm 1.16)
O Evangelho é que nos gera em Cristo (2 Co 4.15);

Evangelho é a proclamação das boas novas aos homens, d’Aquele que foi anunciado pelos profetas do Antigo Testamento, consistente na obra vicária de Cristo, isto é, sua morte e ressurreição dentre os mortos, e seu Senhorio sobre tudo e todos. É o nome que se dá ao evento salvífico realizado por Jesus Cristo, o filho de Deus.

Qual o conteúdo da mensagem do evangelho? Atos 2.22-39; 4.10-12;

Seu conteúdo é a proclamação da vida, morte, ressurreição e senhorio de Cristo, conclamando cada ser humano ao arrependimento, à fé, à conversão, ao batismo e ao discipulado a fim de receber o dom do Espírito Santo, aguardando a parousia do nosso Senhor. Jesus Cristo é o Evangelho.  O evangelho, antes de ser uma mensagem, é uma Pessoa. Jesus Cristo é o Verbo infalível de Deus!

O que é evangelizar, evangelismo (ou evangelização)?

Verbos: euangelizomai, euangelizo, substantivos: euangelion, euangelos derivam de aggelos.

Evangelizar (euangelidzo): trazer ou anunciar boas novas, proclamar, pregar; (euangelidzomai): trazer boas novas, proclamar boas notícias, proclamar, pregar.


O que significa estudar uma Teologia da Evangelização?

Teologia significa “discurso acerca de Deus” e evangelismo é o “ato de anunciar o evangelho”. Para uma perspectiva cristã e evangélica, entendemos que estudar uma teologia da evangelização é estudar sistematicamente o que as Sagradas Escrituras dizem acerca do tema e suas implicações práticas contemporâneas.

Quem é o evangelista?

Euangelistes (euanggelisths): “proclamador das boas obras do Evangelho”.

O mensageiro era aquele que trazia uma mensagem de vitória, ou qualquer outra mensagem que causaria alegrai no interlocutor.

Todos são chamados a dar testemunho (1 Pe 3.15), mas aprouve a Deus separar alguns com uma capacitação especial para este ministério (compare Atos 8.4-5 e ss). Efésios 4.11 (um dos cinco ditos “dons ministeriais”). O evangelista é alguém especialmente capacitado para proclamar o evangelho de Deus.

Quais as características de um evangelista (entre outras)?

Alguém que, pela graça de Deus é cheio do Espírito Santo, e leva uma vida de oração (Atos 4.8, 4.31; 6.8-10; 7.55; 9.17; 11.24; 13.9).
Alguém imbuído da Palavra de Deus (II Tim 2.15 cc. II Tim 3.16-17 cc. 4.5).
Alguém cujo principal foco na vida é a glória de Deus pelo anúncio do evangelho, estando também cheio de amor e compaixão pelas almas (1 Co 9.15 cc. 10.33; Ef 3.8; Rm 9.3).
Alguém que aproveita cada oportunidade para anunciar o evangelho de Deus (Atos 12.19 cc Atos 16.25-33).
Alguém cuja palavra causa um efeito agregador dos ouvintes ao evangelho de Deus (At 8.5-8).

Qual a motivação para o evangelismo (entre outras)?

A glória de Deus (Atos 17.16; 17.29; I Co 10.33).
A compaixão pelas almas. A paixão pelas almas vem do próprio Deus para os nossos corações (Rm 9.3).
Saber que o poder de Jesus o capacita (Mt 28.18-20)
Saber que o resultado vem de Deus (Mt 11.27; 16.17; Jo 1.13; At 16.14; Rm 8.29-30)
A satisfação de ver crescer “a Palavra de Deus” (Atos 12.24; 19.20).
Contribuir para a grande obra de salvação do mundo: Ap 5.9
A consciência de que vivemos nos últimos dias (Atos 2 e Joel 2, I João – já é chegada a última hora).


Qual o papel do Espírito Santo na obra Evangelizadora da Igreja?

Capacitador da Igreja:
Poder para testemunhar a todos os povos: Lc 24.49; At 1.14-15; Atos 2.1-3
Testemunho às autoridades: At 4.8 e ss
Poder renovado: At 4.23-31
Poder para o martírio e anúncio: At 6.3; 6.8-10; 7.55; 8.5-8; 8.26-39;
“Cair” sobre os que ouvem a mensagem: At 10.44;
Discernir os que estão aptos para a missão: At 11.21-26;
Ele tem a presidência da missão: 13.2-4;
Mais importante que a sabedoria de linguagem: 1 Co 2.1-5;

Operando no coração dos que irão receber a mensagem:

Convencendo o mundo do pecado, da justiça e do juízo: João 16.8; 1 Co 2.14.

Em suma: Capacitação da Igreja e preparando o coração dos que irão receber o evangelho.

Qual a relação entre o amor cristão e o testemunho? “Se amardes uns aos outros...” (João 13.34-35).

Qual a relação entre missão e unidade? “Sejam um como eu sou um com o Pai para que o mundo creia que tu me enviaste...” (João 17.20-23).

Texto de apoio: Pacto de Lausanne.

“Afirmarmos que é propósito de Deus haver na igreja uma unidade visível de pensamento quanto à verdade. A evangelização também nos convoca à unidade, porque o ser um só reforça o nosso testemunho, assim como a nossa desunião enfraquece o nosso evangelho de reconciliação. Reconhecemos, entretanto, que a unidade organizacional pode tomar muitas formas e não ativa necessariamente a evangelização. Contudo, nós, que partilhamos a mesma fé bíblica, devemos estar intimamente unidos na comunhão uns com os outros, nas obras e no testemunho. Confessemos que o nosso testemunho, algumas vezes, tem sido manchado por pecaminoso individualismo e desnecessária duplicação de esforço. Empenhamo-nos por encontrar uma unidade mais profunda na verdade, na adoração, na santidade e na missão. Instamos para que se apresse o desenvolvimento de uma cooperação regional e funcional para maior amplitude da missão da igreja, para o planejamento estratégico, para o encorajamento mútuo, e para o compartilhamento de recursos e experiências” (Pacto de Lausanne, item 7).

Em sua opinião, há alguma relação entre evangelismo e ação social? Lc 12.33; 14.12-14; Mt 25.31-40; Lc 16.19-31; Gl 2.10; 2 Co 9.6-9.

“Afirmarmos que Deus é o Criador e o Juiz de todos os homens. Portanto, devemos partilhar o seu interesse pela justiça e pela conciliação em toda a sociedade humana, e pela libertação dos homens de todo tipo de opressão. Porque a humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, sem distinção de raça, religião, cor, cultura, classe social, sexo ou idade possui uma dignidade intrínseca em razão da qual deve ser respeitada e servida, e não explorada. Aqui também nos arrependemos de nossa negligência e de termos algumas vezes considerado a evangelização e a atividade social mutuamente exclusivas. Embora a reconciliação do homem não seja a reconciliação com Deus, nem a ação social evangelização, nem a libertação política, salvação, afirmamos que a evangelização e o envolvimento sócio político são ambos parte de nosso dever cristão. Pois ambos são necessárias expressões de nossas doutrinas acerca de Deus e do homem, de nosso amor por nosso próximo e nossa obediência à Jesus Cristo. A mensagem da salvação implica também uma mensagem de juízo sobre toda forma de alienação, de opressão e de discriminação, e não devemos ter medo de denunciar o mal e a injustiça onde quer que existam. Quando as pessoas recebem a Cristo, nascem de novo em seu reino e devem procurar não só evidenciar, mas  também divulgar a retidão do reino em meio a um mundo injusto. A salvação que alegamos possuir deve estar nos transformando na totalidade de nossas responsabilidades pessoais e sociais. A fé sem obras é morta” (Pacto de Lausanne, item 5)

Qual o papel “Kenótico” de Cristo em sua missão no mundo? Filipenses 2.4-11.

O que podemos aprender do exemplo de Jesus com a mulher samaritana (João 4.1-42)?

Que barreiras Jesus rompeu? Quais as “estratégias” de abordagem que Jesus utilizou diante desta mulher? Qual a diferença de postura desta mulher em relação à Nicodemus (João 3)?

O que podemos aprender da experiência de Paulo em Atenas (Atos 17.16-34)?

Quais estratégias ou recursos evangelísticos Paulo utilizou em seu discurso? Ele errou em algum momento? Em sua opinião, Paulo falhou ou foi bem sucedido em sua passagem por Atenas?


Que distorções devem ser evitadas na prática do evangelismo?

Proselitismo: anunciar Jesus onde este já foi anunciado, edificando sobre fundamento alheio, gerando concorrência entre as igrejas e deixando o foco de anunciar onde Cristo já foi anunciado (Rm 15.20; 2. Co 10.16);
Substituir o anúncio pela ação social e anunciar sem fazer ação social.

“Um dos equívocos da eclesiologia refere-se à sua prática evangelística e consiste na afirmação de que ação social é evangelização. A ênfase no Novo Testamento deixa claro que evangelização é a proclamação das boas novas, e em hipótese alguma pode ser confundida com ação social”... “Se por um lado a compreensão de que ação social é evangelização é um equívoco, por outro lado, evangelização sem ação social é também um erro” (CAETANO, Fábio Henrique. História e Teologia da Evangelização. O autor discorre acuradamente acerca deste assunto entre as páginas 72-81).

Evangelismo sem igreja. O que é igreja? É a “ecclesia”, a comunidade dos discípulos, em que o evangelho é ensinado e vivido, e os sacramentos corretamente administrados. É a agência do Reino em que os discípulos são treinados para a missão de Deus no mundo. O caráter da igreja é universal, para todos os povos, e pessoas de todas as idades, e não focada somente em um segmento social.
Exploração da necessidade alheia para promover conversões. Jesus promoveu o bem e fez milagres independentemente da reação posterior que a pessoa fosse ter.

“...alguns consideram a ação social um meio de evangelismo. Neste caso, evangelismo e conversão são os objetivos principais, mas a ação social é um meio preliminar útil e efetivo para alcançar estes objetivos. Em sua forma mais ostensiva, isto faz do trabalho social (seja alimentação, saúde ou educação) o açúcar no comprimido, a isca no anzol, ao mesmo tempo em que, em sua melhor forma, dá ao evangelho uma credibilidade que de outra forma ele não teria. Em qualquer dos casos, o cheiro de hipocrisia permeia nossa filantropia. O que nos impede a nos engajarmos nisso é um motivo francamente dissimulado. E o resultado de fazer do nosso programa social um meio para outro fim é que produzimos os chamados ‘cristãos cesta básica’. Isso é inevitável se nós próprios temos sido ‘evangelistas cesta básica’. Eles herdaram esta ilusão de nós. Não é de se admirar que Gandhi tenha dito, em 1931: ‘Considero que o proselitismo disfarçado de trabalho humanitário é, no mínimo, doentio (...). Por que eu deveria mudar de religião devido ao fato de um médico que professa o cristianismo como sua religião ter me curado de alguma doença?” (STOTT, John. A missão cristã no mundo moderno, p. 30).

“Um homem faminto não tem ouvidos...” (John Taylor).

Ênfase exagerada nos métodos em detrimento da mensagem evangelística e da graça de Deus. O único “método” por assim dizer que Deus determinou é a pregação do evangelho (Rm 10.14).
Culto do “desempenho” e dos resultados, pois, como vimos, o resultado depende de Deus.
Evangelismo sem discipulado.
“Antropocentrização” do evangelho, mais voltado para as necessidades humanas do que para a glória de Deus. Ex: Teologia da Prosperidade.
Falsa dicotomia entre evangelismo e teologia.

Bibliografia

BARRO, Antônio Carlos, KOHL, Manfred Waldemar. “Missão Integral Transformadora”. Londrina: Descoberta, 2005.

CAETANO, F. “História e Teologia da Evangelização. São Paulo, Arte Editorial, 2010.

COSTA, Herminten Maia Pereira da. Teologia da Evangelização. Considerações Gramaticais (2). In http://www.mackenzie.br/fileadmin/Graduacao/EST/DIRETOR/Teologia_da_Evangelizacao__2_.pdfacessado em 03 de agosto de 2012, às 16:48 h.

LOPES, Agustus Nicodemus. Restaurando a Teologia da Evangelização. in  http://www.monergismo.com/textos/evangelismo/teologia_evangelizacao.htmacessado em 03 de agosto de 2012, 17:42 h

PACTO DE LAUSANNE. “A igreja e a evangelização”. Série Lausanne 30 anos. São Paulo: ABU Editora, 2003.

STOTT, John. A missão cristã no mundo moderno. Viçosa: MG, Ultimato, 2010.

SANCHES. Regina Fernandes, Teologia da Evangelização. In http://teologiaemi.dominiotemporario.com/doc/Apostila_de_Evangelizacao.pdfacessado em 03 de agosto de 2012, 17:40 h.