quinta-feira, 11 de julho de 2013

Panorama do Novo Testamento: Atos dos Apóstolos


(cuida-se do esboço de uma aula ministrada em um curso popular de teologia)

ATOS é o único livro que apresenta uma narrativa histórica dos acontecimentos imediatamente posteriores à ascensão. É o segundo volume da obra de Lucas (Lc 1.1-4 e At 1.1); o primeiro a utilizar o nome “atos dos apóstolos” foi Irineu, aproximadamente em 190 d. C.


AUTORIA: formalmente, anônimo. A tradição unânime atribui a Lucas. A partir de At 16.10, o pronome começa ser usado na primeira pessoa do plural (16.10-17; 20.5 a 21.18; 27.1 a 28.16). Ou seja, o autor da obra, a partir de tais acontecimentos, estava juntamente com Paulo. O autor esteve com Paulo em Roma (27.1 a 28.16). De Roma, Paulo escreveu as epístolas da prisão (efésios, filipenses, colossenses, filemon). Estas epístolas nos dizem algo acerca dos companheiros de Paulo na ocasião. Aristarco, Marcos, Timóteo, Tíquico, Epafras, Epafrodito, Demas, Jesus, chamado Justo e Lucas estavam parte ou todo o tempo com o apóstolo. Aristarco é citado em terceira pessoa (At. 19.29; 20.4; 27.2). Assim também Marcos (12.12; 15.37,39), Timóteo (16.1; 17.14; etc), Tíquico (20.4), logo, não são eles os autores. Epafras (Col 1.7-8) e Epafrodito (Fil. 2.25, 4.18) não estavam com Paulo na viagem a Roma. Demas (Col 4.14) abandonou Paulo (2 Tim 4.10). Jesus, chamado Justo (Col 4.11), não é mencionado mais nenhuma vez, e a tradição se cala acerca dele. Sobra somente Lucas (Col 4.14). A luz de todas estas evidências, mais a tradição unânime da igreja, apontam para a autoria Lucana do Evangelho e de Atos[1].

DATA: Atos foi escrito, certamente, depois do evangelho, e após a estadia de dois anos de Paulo em uma prisão romana (At. 28.30). Logo, não pode ter sido escrita antes do referido fato. A tradição sempre mencionou que fora escrito antes do primeiro julgamento de Paulo sob Nero. A chegada de Festo à Cesaréia (At 25.1) data de cerca de 57 d.C., segundo apontam os historiadores. Daí, a viagem de Paulo para Roma provavelmente aconteceu entre 57-58. Os dois anos de Atos 28.30, estavam provavelmente entre 58-60 (com alguma chance de erro quanto a isso). Muito provavelmente, Atos foi escrito durante este encarceramento de Paulo, por vários motivos: o autor nada sabe sobre as epístolas escritas por Paulo; o encerramento abrupto do livro presume que foi escrito antes de Paulo se apresentar a Nero; nada fala da morte de Paulo; ainda não havia começado a perseguição aos cristãos por decreto imperial, e em todo lugar até então as autoridades romanas tinham declarado a inocência de Paulo; não havia nenhuma insinuação de que a guerra judaico-romana (66 – 70 d.C.) já havia começado, ou de Jerusalém ter sido destruída (70 d. C.).


PROPÓSITO: Segundo Carson, relatar a história do início do movimento cristão após a ascensão de Jesus, no poder do Espírito Santo, e a todos os povos. Entretanto, muitos outros propósitos foram relacionados pelos estudiosos. Entre eles: 1) mostrar a expansão geográfica do movimento cristão, de Jerusalém à Roma. Entretanto, é bom lembrar que o cristianismo chegou a Roma antes de Paulo (Rm 15.22-24 e At 2.10). Tem mais a ver com método do que com o propósito. 2)outros dizem que Lucas escreveu um “evangelho do Espírito Santo”. Um professor antigo dizia que o livro bem que poderia se chamar “Atos do Espírito Santo”. O progresso inteiro da igreja, segundo Atos, ocorre sob o poder do Espírito Santo, desde os primeiros capítulos. Entretanto, há muitos capítulos que o Espírito Santo não é mencionado (3, 12, 14, 17, 18, 22, 23, 24, 25, 26, 27), daí, não se poder conceber a centralidade do Espírito nesta obra da mesma forma como a de Jesus no evangelho; daí, segundo Broadus, ser errôneo denominá-la de “Atos do Espírito Santo”, ou “Evangelho do Espírito Santo”. 3) Ser um “Atos dos Apóstolos” também não é o propósito de Lucas. Nove dos apóstolos jamais são mencionados nesta obra sequer pelo nome. Tiago só é mencionado em relação à sua morte (12.12). De João não se ouve nada após 8.14. Pedro desaparece após At 15. A ênfase maior do livro, no que se refere aos apóstolos, está primeiramente sobre Pedro, depois sobre Paulo.

CONTEÚDO: 1. Lucas, conforme atesta a tradição, escreve a Teófilo certificando acerca da ressurreição e ascensão de Jesus e de sua ordem determinando aos discípulos que aguardassem em Jerusalém, esperando a promessa do batismo com o Espírito Santo a fim de receberem poder para testemunharem até aos confins da terra. Os discípulos perseveram em oração no cenáculo, juntamente com Maria e os irmãos de Jesus e sorteiam outro apóstolo, Matias, alguém que acompanhou o ministério de Jesus desde o batismo de João até a ascensão de Jesus.
2. O Espírito Santo vem sobre os discípulos, sendo distribuídas entre eles, línguas como de fogo, pousando sobre cada um, falando cada um em outra língua. Muitos que estavam em Jerusalém ouviram os discípulos falarem acerca das grandezas de Deus em seu próprio idioma[1]. Muitos zombam, e acusam os apóstolos de estarem bêbados. Pedro prega aos judeus e demais habitantes de Jerusalém, explicando que o que ocorreu foi cumprimento do que disse o profeta Joel. Três mil se convertem[2]e dão os frutos do reino, sendo inclusive batizados.
3. Pedro e João curam, em nome de Jesus, um coxo de nascença, na porta do Templo. Pedro prega ao povo, que o Deus de Abraão, Isaque e Jacó glorificou a Jesus, que fora anunciado pelos profetas. Acusa os seus ouvintes de terem negado Jesus e o trocado por um homicida. Prega arrependimento para cancelamento dos pecados.
4. Pedro e João são presos pelas autoridades religiosas judaicas, mas o número de discípulos subiu para quase cinco mil. Os apóstolos são interrogados, e Pedro prega às autoridades, acusando-as de terem matado Jesus, e anunciando sua ressurreição e salvação exclusivamente em seu nome. Diz também que o homem curado o fora por Jesus. As autoridades não negam a cura, mas ordenam aos apóstolos que não preguem mais em nome de Jesus, mas estes advertem que não irão obedecê-los[3], tendo sido soltos por conta do povo. Os apóstolos contam o ocorrido aos demais discípulos, reconhecem que a perseguição foi prevista pelos profetas, e oram pedindo mais poder para testemunharem, ficando novamente cheios do Espírito Santo[4]. Enquanto isso, a igreja crescia e multiplicava os frutos do Reino.
5. Ananias e Safira morrem por tentar enganar os discípulos. O número de seguidores cresce e numerosos sinais e prodígios são realizados pelos apóstolos. Estes são presos pelo sumo-sacerdote e pelos saduceus, por inveja, em prisão pública. São soltos por um anjo para voltarem a ensinar no templo. Foram novamente presos, sem violência, e novamente interrogados. Eles querem matar os apóstolos, mas Gamaliel, um rabi respeitado, os impede. Eles açoitam os apóstolos e os libertam, e estes se alegram por terem sofrido em nome de Jesus.
6 – 7. Problemas na igreja. Helenistas reclamam que suas viúvas estavam sendo negligenciadas na distribuição diária de alimentos[5]. Eleição de sete diáconos e martírio de Estevão. Interessante que os eleitos, pelos seus nomes, são judeus helenistas. Aqui nasce o ministério diaconal na igreja.
8. Saulo consente na morte de Estevão, e assola a igreja. Dispersão dos discípulos, menos os apóstolos[6], às regiões da Judéia e Samaria, e iam pregando o evangelho, havendo destaque para Felipe, um dos sete, que pregava e fazia grandes sinais.  Interessante notar que a ênfase da dispersão seja acerca dos helenistas, e não dos judeus (os sete, eram helenistas, ao contrário dos apóstolos). Muitos são batizados, e Pedro e João foram enviados pelos demais apóstolos à Samaria para orar pelos que receberam o evangelho, para que recebessem o Espírito Santo, demonstrando que a igreja, mesmo fundada por helenistas, está sob a liderança dos apóstolos[7]. Simão, o mágico, tenta “comprar” o poder do Espírito Santo. Felipe, por ordem de um anjo, evangeliza um oficial etíope, e após, foi evangelizar todas as cidades até chegar em Cesaréia[8].
9. A conversão e o início do ministério de Saulo a caminho de Damasco[9]. Principais pontos da teologia paulina se encontram neste relato de conversão. Fuga para Jerusalém. O testemunho de Barnabé. Envio para Tarso, e paz na igreja na Judéia, Galiléia e Samaria, que crescia. Pedro vai para Lida, e cura Enéias, que estava a oito anos de cama. Após, é chamado para Jope, e ressuscita Tabita, discípula notável pelas boas obras e esmolas que fazia.
10.  Conversão de Cornélio e de toda a sua casa ao evangelho, por intermédio de Pedro, que precisa ser curado de seu preconceito contra os gentios.
11. Pedro é inquirido pelos da circuncisão (cristãos) do porque dele ter comido com incircuncisos. Pedro dá um relato detalhado do ocorrido, e aqueles cristãos judeus, se  alegram com o testemunho de conversão dos gentios. A igreja se espalhara e crescia por intermédio daqueles que foram perseguidos outrora em Jerusalém. Barnabé é enviado à Antioquia. Ele foi para Tarso, e trouxe Paulo à Antioquia[10], e eles ensinaram numerosa multidão. Grande a importância de Barnabé no ministério de Paulo. Neste local, os discípulos são chamados pela primeira vez de cristãos. A igreja de Antioquia envia suprimentos para Judéia, pelas mãos de Saulo e Barnabé, diante de uma fome que fora profetizada por Ágabo, profeta de Jerusalém.
12. Tiago, irmão de João, é martirizado por Herodes, e para agradar os judeus, prendeu Pedro. A igreja intercedia incessantemente pelo apóstolo. Um anjo do Senhor o liberta. Ele vai à casa da mãe de Marcos, onde havia muitos que congregavam e oravam, e que se alegraram com a sua libertação. Herodes manda “justiçar” os guardas, e após um discurso em que foi aclamado como um deus foi ferido por um anjo do Senhor, e morreu. Barnabé e Saulo voltam para Jerusalém.
13. A igreja em Antioquia separa, por ordem do Espírito Santo, a Barnabé e Paulo, e eles foram para Selêucia e dali partiram para Chipre, tendo anunciado o evangelho em Salamina. Evangelizam, em Pafos, Barjesus, falso profeta e o procônsul Sérgio Paulo, sofrendo oposição de Elimas, o mágico, que fica cego por ordem de Paulo. Eles vão a Perge da Panfília, e depois para Antioquia da Pisídia, e João se aparta deles e volta para Jerusalém. Paulo prega em uma sinagoga. Judeus tomados de inveja, resistem, e eles se voltam para os gentios, que recebem a palavra com alegria. Eles são expulsos da cidade por instigação dos judeus.
14. Eles pregam numa sinagoga em Icônio, e creram muitos judeus e gregos. Em nova perseguição, eles fogem para Listra e Derbe, e anunciam o evangelho. Paulo cura um paralítico de nascença em Listra, e a multidão os trata como deuses, sendo impedidos pelos apóstolos. Paulo é apedrejado por instigação dos judeus, e é arrastado como morto para fora da cidade. Eles foram para Derbe, anunciam o evangelho, depois voltam para Listra, Icônio e Antioquia, fortalecendo os discípulos, elegendo presbíteros. Atravessam a Pisídia, vão para Panfília, anunciam em Perge, descem a Atália, e retornam para Antioquia.
15. É realizado o concílio de Jerusalém para resolver a questão da circuncisão entre os gentios. Gentios não precisam ser circuncidados. Paulo e Barnabé, depois, voltam por todas as cidades que haviam pregado o evangelho. Desavença por conta de João Marcos. Paulo leva Silas consigo e se separa de Barnabé.
16. Encontro com Timóteo em Listra, de pai grego, sendo circuncidado[11]. Paulo tem uma visão para ir à Macedônia, após ser impedido pelo Espírito Santo de ir a outros lugares. Foram de Trôade para Semotrácia, a Neápolis e a Filipos. Conversão de Lídia. Expulsão de um espírito adivinhador de uma jovem, que dava lucro aos seus senhores. Paulo e Silas são levados às autoridades romanas, sendo eles açoitados e encarcerados. Um terremoto abriu todas as selas, e após, houve a conversão do carcereiro e de toda sua casa. As autoridades os libertam, e temem, pois eram cidadãos romanos.
17. Paulo prega e Tessalônica, e converte judeus e gentios. Judeus invejosos querem prendê-los, e arrastam Jasom que os hospedou. Paulo e Silas vão para Beréia, e os bereanos recebem com avidez seu ensino, convertendo grande número de pessoas. Paulo parte para Atenas, ficando Silas e Timóteo. Paulo prega aos atenienses[12].
18. Paulo parte para Corinto. Conhece Áquila e Priscila. Conversão de Crispo, o principal da sinagoga e de muitos outros. Paulo é levado diante Gálio, procônsul da Acaia, que não quer se meter na questão. Viagem de retorno à Antioquia. Confirmação dos discípulos da Galácia e Frígia. Áquila e Priscila convertem Apolo, em Éfeso.
19. Rebatismo, em Éfeso[13], de discípulos de João, que recebem o Espírito, e oram em línguas e profetizam. Paulo ensina nas sinagogas e em uma escola. Oposição dos judeus. Milagres extraordinários. Judeus exorcistas apanham de um demônio. Muitos se arrependem e se convertem. Oposição dos “empresários” da religião e dos adoradores de Diana dos efésios que se reúnem no teatro. Grande confusão. O escrivão da cidade apazigua o povo e dispersa a assembléia.
20. Paulo parte para a Macedônia, Grécia e volta para Macedônia. Depois para Filipos, acompanhado. Discurso longo de Paulo e queda de Êutico. Ida a vários lugares: Assôs, Mitilene, Quios, Samos, Mileto. Reunião com os presbíteros de Éfeso e emocionante despedida.
21. De Mileto vão para Cesaréia. Estadia na casa de Filipe. Profecia de  Ágabo. Chegada em Jerusalém. Paulo é aconselhado a arcar com as despesas de voto de quatro homens para mostrar que não é contra Moisés. Paulo recebe várias acusações de judeus que chegaram da Ásia e passa a ser espancado, sendo que o comandante romano impede o espancamento. Paulo discursa e fala acerca do seu testemunho. Paulo é preso e revela sua cidadania romana.
23. Paulo discursa diante do Sinédrio. Discussão entre fariseus e saduceus por conta da questão da ressurreição. Um grupo de judeus faz juramento de matar Paulo, a trama é descoberta, e ele é escoltado até Cesaréia, até a presença do governador.
24. Os judeus acusam Paulo diante do governador. Paulo se defende, dizendo que é julgado por causa da ressurreição dos mortos. Félix ouve Paulo constantemente, e o mantém encarcerado por dois anos para agradar os judeus, até ser substituído por Pórcio Festo.
25. Os judeus fazem novas acusações, sem prova, contra Paulo, diante de Festo. Este sugere que o julgamento seja transferido para Jerusalém, para agradar os judeus; então Paulo apela para César.
26. Paulo se defende diante do rei Agripa, e dá o seu testemunho. Festo acha que Paulo está louco (v. 24). Agripa quase é persuadido a se tornar cristão (v.28). Seus julgadores entendem que Paulo é inocente.
27. Paulo navega para Roma, e profetiza dificuldades. Naufrágio. Todos no navio se salvam e vão para ilha de Malta.
28. Paulo é picado por uma serpente. Cura o pai de Públio e muitos outros enfermos. Após, continuam sua viagem à Roma. Paulo, em prisão domiciliar, dá testemunho do Cristo para judeus e também, provavelmente, aos gentios, por dois anos.

BIBLIOGRAFIA

CARSON, D.A., MOO, Douglas J, MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997.

HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1989.

KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982.

PEARLMAN, Myer. Através da Bíblia, livro por livro. São Paulo: Ed. Vida, 1999.



[1] Um sinal da universalidade da igreja.
[2] Vejam as principais ênfases da pregação de Pedro e os frutos dos conversos.
[3] Não se deve obediência cega às autoridades.
[4] É impossível expandir a obra sem estar cheio do Espírito Santo.
[5] Um tipo de racismo na igreja?
[6] Perseguição ao cristianismo judaico-helênico?
[7] Somente era possível receber o Espírito Santo por imposição de mãos dos apóstolos?
[8] Notem como Deus, até este momento, usou mais Felipe que os apóstolos para anunciarem o evangelho de Deus em outras regiões.
[9]De que modo a conversão de Saulo influenciou sua teologia?
[10] Uma reabilitação do ministério de Paulo?
[11]Logo após o concílio.
[12]Note a diferença do discurso apostólico quando se trata de uma pregação exclusivamente aos gentios.
[13]Terceira viagem missionária



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