terça-feira, 24 de setembro de 2013

Porque no Oriente não houve Reforma?

A foto em questão é de um padre ortodoxo e sua família. Eu a retirei da página do facebook Cristianismo Ortodoxo.

A foto em questão é de um padre ortodoxo e sua família. Eu a retirei da página do facebook Cristianismo Ortodoxo.

A Igreja Ortodoxa entende a si mesma como fiel continuadora das tradições deixadas pelos apóstolos e pais da igreja. É uma fé muito bonita, com uma tradição muito rica, e que se separou de Roma no ano de 1054 (na verdade, os cristãos ortodoxos entendem que, quem se separou foi Roma). Seus principais patriarcados eram Constantinopla, Antioquia, Alexandria e Jerusalém. Hoje, a mais forte representante da Ortodoxia é a Igreja Russa.

Fato é que, olhando para a história da Igreja Ortodoxa, não há, de modo geral, nada parecido com o que ocorreu no Ocidente relativo à Reforma Protestante. Porque será?

De início, já digo que esta simples meditação não visa de modo algum esgotar o tema, mas somente fazer conjecturas do porque não terem surgido reformadores conforme os que existiram no ocidente. Faço esta reflexão de forma mais respeitosa possível. Seguem portanto, alguns possíveis motivos:

Entre os ortodoxos não há a doutrina da infabilidade papal. O seu líder, o Patriarca de Constantinopla é um "primeiro entre iguais", possui uma liderança honorífica, e assim eles entendiam que deveria ser o bispo de Roma. Não havia portanto, esta discussão teológica no oriente em relação ao seu próprio líder. A questão do modo como a liderança papal era exercida no ocidente foi motivo de fortes desencontros entre reformadores e a Igreja de Roma.

Os ortodoxos sempre serviram a Eucaristia nas duas espécies (pão e vinho). A Igreja de Roma, ao contrário, só servia para o povo em uma espécie. Sabemos que esta foi uma grande discussão entre os reformadores e seus oponentes. Lutero falou sobre este assunto em sua obra "Do cativeiro babilônico da igreja".

Não havia entre os ortodoxos uma linguagem universal como o latim era no ocidente. Não importa em que lugar, era preciso rezar em latim. A Ortodoxia realiza sua liturgia em uma linguagem mais significativa para o povo ao qual ministra. Então, este tipo de embate também não surgiu no oriente. Os reformadores, assim que puderam, aboliram o latim e adotaram o vernáculo nos cultos.

A igreja ortodoxa, salvo melhor juízo, também nunca obteve o poder temporal, e com isso, creio que ela evitou algumas manchas históricas como a Santa Inquisição, seja ela católica, ou mesmo a inquisição protestante. Havia imperadores que ora aceitavam a ortodoxia, ora a rejeitavam, mas, de modo geral, creio que os bispos ortodoxos cuidavam era da parte mais espiritual do império. Mas confesso que precisaria fazer estudos mais aprofundados em relação a isso.

Os padres ortodoxos não são obrigados a seguir o celibato, ou seja, menos um ponto de desacordo com aquilo que os reformadores reivindicavam. Um ortodoxo, mesmo se for casado, poderá se tornar padre. Entretanto, caso tenha se tornado padre antes de se casar, não mais poderá fazê-lo. Os bispos ortodoxos têm que ser celibatários, e devem ser escolhidos entre os monges. Entretanto, creio que em algumas jurisdições, qualquer fiel pode ser escolhido como Patriarca (o líder máximo de determinada jurisdição), ainda que não seja celibatário.

Entre os ortodoxos, embora Maria seja muito venerada, não há culto mariano separado para ela, como ocorre no catolicismo romano. Não existe na Ortodoxia, por exemplo, uma cadeira de "Mariologia" como no catolicismo romano. Isto porque, Maria existe em função do Filho. Estuda-se a pessoa de Maria na cadeira de Cristologia. "Theotokos" (geradora de Deus) é um dogma Cristológico. "Theotokos" é a terminologia mais exata para o dogma, e não "Theomater".

Eu até acho, sinceramente, que boa parte da dogmática da igreja ortodoxa poderia ser aceita por um protestante bem instruído. Todos os chamados concílios ecumênicos ocorreram em sedes ortodoxas. É de lá que vem o credo Niceno constantinapolitano, por exemplo.

De qualquer modo, culturalmente falando, há muita diferença entre os ortodoxos e as igrejas do ocidente. Dos evangélicos então, nem se fala. Um evangélico talvez não se sinta completamente estranho em uma missa romana, mas em uma liturgia ortodoxa, ele se sentiria em um outro mundo. Isso porque os ortodoxos fazem questão de manter as tradições conforme receberam.

Enfim, embora outros exemplos possam ser dados, penso que muito do que queriam os reformadores já existia na ortodoxia, sem a necessidade de Reforma. Após a reforma arminiana, as igrejas protestantes, notadamente as metodistas aproximaram-se ainda mais da Teologia Ortodoxa (os ortodoxos são sinergistas, assim como os arminianos e wesleyanos, ao contrário dos reformados, que são monergistas). John Wesley bebeu muito de fontes ortodoxas.

Um dos erros que os reformadores cometeram, ao meu ver, foi buscar fazer uma reforma teológica tão radical, ao ponto de rejeitar uma eclesiologia de séculos. Sua rejeição à Roma foi tão forte, que, a meu ver, rejeitaram um forte legado eclesiológico cujo exemplo talvez estivesse nítido no Oriente. A alta Igreja Anglicana e a Igreja Luterana escandinava talvez pudessem ser consideradas exceções ao manter o episcopado, mas o iluminismo atingiu tão profundamente tais igrejas que hoje elas também parecem estar muito distantes da Ortodoxia.