quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Prostituição espiritual

Um velho amigo, sacerdote que decidiu se tornar barman em Amsterdã, disse certa vez: “não quero ser chamado de ‘pastor’ porque já vi muitos chamados pastores que são prostitutos espirituais que vendem seu amor sob a condição de mudança. Se minha relação com as pessoas, como pastor, é uma pressão sutil para pararem de beber tanto, ou afastarem-se das drogas, serem menos promíscuos, cortarem o cabelo, irem ao tribunal, à igreja ou à prefeitura, ainda não estou realmente com elas, mas com minhas próprias preocupações, sistema de valores e expectativas e me tornei um prostituto degradando meus irmãos e irmãs, transformando-os em vítimas de minhas manipulações espirituais”.

Muitos ministros reclamam que ninguém diz “muito obrigado” a eles, que as horas gastas com as pessoas não provocam nenhuma mudança nos outros, que depois e muitos anos de ensino, pregação, aconselhamento, organização e celebração, as pessoas ainda estão apáticas, a igreja ainda é autoritária e a sociedade corrupta. Mas se nossa gratificação precisa vir de mudanças visíveis, temos transformado Deus em um homem de negócios e a nós em mero agentes de vendas.

(NOUWEN, Henri. Ministério Criativo. Ed. Palavra, p. 77)


O interessante é que geralmente acusamos os pastores da teologia da prosperidade de comercializar o evangelho. Entretanto, amar uma pessoa com o intuito único de transformá-la, segundo o autor, pode ser considerada uma forma de manipulação, pressão e prostituição do próprio evangelho. Segundo o autor, o amor para existir e ocorrer não pode existir unicamente com base na resposta que o outro pode vir a me dar ou não.

Entretanto, alguém também poderá dizer que o próprio Deus exige determinadas mudanças para considerar a amizade de alguém, pois o próprio Jesus disse que seus discípulos seriam seus amigos SE fizessem o que ele mandasse.

Talvez somente um Deus homem pudesse fazer uma exigência assim.


Particularmente, achei libertadora a ideia de que não devo me aproximar das pessoas e amá-las unicamente com a intenção de que nelas ocorra alguma mudança. Nós devemos amá-las e pronto.