sábado, 7 de março de 2015

A Voz do que clama no deserto

João Batista no deserto


voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas (Marcos 1.3).

João Batista era filho do sacerdote Zacarias e de Isabel (Lucas 1.5 em diante). Isabel era filha de Arão (Lc 1.5). Significa que João deveria ter sido sacerdote também. Ele era da tribo de Levi e da família de Arão.

Mas por algum motivo, ele não estava no templo, onde deveria ser o seu lugar de atuação. Ele está no deserto.

Interessante notar que no tempo do ministério de João Batista, Anás e Caifás eram os sumo-sacerdotes. Estranha esta ideia de que havia dois sumo sacerdotes, afinal, pela lei só deveria haver um.

Isso parece significar que o sistema religioso de Israel estava bastante corrompido. E no modo como vemos João Batista, e mesmo Jesus tratando os fariseus, a outra conclusão não podemos chegar: os líderes religiosos de Israel lesionavam o povo e adulteravam a lei.

Neste quadro, João Batista não poderia mesmo ser sacerdote, e outra alternativa não teve senão que “clamar do deserto”.

É como se a voz de Deus não pudesse mais soar de dentro do sistema religioso de Israel, de dentro do templo, e tivesse que ir ao deserto.

Lembro-me de um fato da história de John Wesley. Houve um momento na vida dele que foi proibido de pregar nas paróquias anglicanas. Ele foi até o cemitério, subiu em cima do túmulo de seu pai, e disse a si mesmo: daqui, pelo menos, hão de me respeitar. E começou a pregar dali.

Fato é que centenas de pessoas iam ouvir, no cemitério, as pregações de Wesley.

Creio que algo muito parecido ocorria no caso de João Batista.

As multidões deixavam o sistema religioso de Israel e iam ouvir a voz de Deus no deserto.

Não que João pregasse contra o Templo, ou contra o sacrifício, ou contra a religião em si, mas sim contra a postura dos que deveriam ser exemplo para todos.

Há um exemplo muito parecido com isso quando João escreve em sua revelação a carta para a igreja em Laodicéia. Curiosamente, embora o culto estivesse ocorrendo normalmente, temos a imagem de um Cristo que batia na porta pelo lado de fora, querendo entrar no coração de alguns (Apoc 3.20).

Parece que há momentos em que o sistema religioso fica tão corrompido que Deus se “retira para o deserto”. Parece que muitas vezes Deus não fala mais dentro do templo, mas sim de fora.

Deus nunca gostou de religião vazia. Por intermédio da boca do profeta Isaías chegou a dizer que não ouvia as orações que se fazia no templo (no sentido de não as atender) e que até sofria por causa do culto que supostamente lhe era prestado (Isaías 1.14-15).

Imaginem Deus sofrendo por causa de um culto!

Nossa vida precisa ter a essência de Deus. Precisamos buscar o Senhor por aquilo que Deus é. Um ritual vazio pode até ser ofensivo à majestade divina. Talvez vivamos tempos em que não se possa creditar toda voz dita de dentro do templo como “a voz de Deus”.

Às vezes também tudo pode estar funcionando perfeitamente dentro da religião. O louvor funcionando bem. Os dízimos e as ofertas estão ocorrendo. Todos participam da eucaristia. O culto está lotado. Entretanto, se nossas vidas não estiverem de acordo com o padrão do evangelho, talvez Deus se canse do culto, e acabe levantando alguém para também pregar do deserto. É incrível como sistemas religiosos podem ter a capacidade para não servir mais à finalidade para o qual em tese foram criados, qual seja, a de evidenciar a voz de Deus no mundo. É incrível como tantas vezes a religião pode acabar expulsando a própria voz de Deus do templo!