sábado, 6 de fevereiro de 2010

A partir do fracasso...

"Não cumpro uma décima milésima parte dos mandamentos cristãos, é verdade, e sou culpado disso; mas não é por não querer cumprí-los que fracasso e, sim, por não saber como fazê-lo. Ensine-me como escapar das malhas da tentação que me fascina, ajude-me e os cumprirei. Mas, mesmo sem ajuda, desejo e espero fazê-lo. Culpe-me - eu mesmo o faço - mas culpe a mim, e não ao caminho que eu sigo. Se sei o caminho de casa, mas se vou por ele bêbado e cambaleando de um lado para outro, isto faz o caminho ser errado?" (Leon Tolstoi)

Certamente, há muitos cristãos vitoriosos.

Vejo na televisão, todos os dias.

Gente que estava isso, estava aquilo, mas que foi fiel no dízimo e... tcham tcham tcham tcham... prosperaram da noite para o dia!

Uma fé do tipo mágico, etc...

Por outro lado, também não ignoro a literatura acerca dos grandes heróis da fé, bem como de grandes misticos.

Não ignoro, por exemplo, nem a vida nem a doutrina de John Wesley, com a idéia de perfeição cristã.

Também li um pouco acerca de Finney, Edwards, Tozer, para ficarmos somente do lado protestante. Do lado católico, grandes místicos e místicas como Tereza d' Ávila, São João da Cruz, Tomás de Kempis, e outras Terezas...

Com tudo isso, digo-o, por pura verdade, sem nenhum cinismo de minha parte, não consegui chegar nem nas unhas dos ditos cujos...

O bispo Spong, conhecido cristão anglicano liberal, disse que o seu cantinho de livros dos místicos e heróis da fé é por ele apelidado de "cantinho da bancarrota", ou "cantinho da falência", visto que, jamais conseguiu aplicar em sua vida o que estava ali ensinado por aqueles grandes autores; daí, o tal bispo ter procurado vivenciar, segundo ele mesmo, uma espiritualidade mais apropriada para o homem do século XX...

Bom.

Gosto de todos eles.

Não dos que vão à TV fazer propaganda de igreja.

Não... destes não. Mas gosto dos demais...

Entretanto, penso que o que tem me definido muito como cristão, sinceramente, não são minhas vitórias, mas sim meus fracassos.

Isso mesmo.

O meu próprio fracasso pessoal em ser um cristão melhor, em viver cada termo do sermão da montanha, cada instrução paulina, cada conselho dos grandes mestres da espiritualidade.

Fracasso após fracasso...

Fracasso após fracasso até finalmente não ter absoluta e absurdamente mais nada em que me apoiar.

Nem igreja, nem família, nem amigo, nem moral, nem ética, nem ministério, nem grana, nem profissão, nem nada...

Absolutamente nada...

E cada vela da minha existência vai se apagando, uma a uma até eu ir me tornando a própria não existência, o próprio não ser, as trevas puras, a escuridão total...

Até sobrar somente uma única luz acesa, uma única vela acesa...

A luz da graça e da misericórdia divina...

Acho que quem não experimenta o fracasso total, a morte total, o descaso total, não tem como confiar unica e exclusivamente nesta graça...

Daí minha cabeça teimosa permanecer evangelical... protestante...

"Sola Gratia"... "Somente a graça"...

ou "Somente a misericórida...

Sei que houveram os Wesleys, os Finneys, as Terezas, os santos...

E não duvido da virtude dos tais...

Mas eles são eles, eu sou eu...

E sou muito diferente deles...

Tento seguir o rastro de muitos deles, mas como disse Tolstoi, vou caminhando como um bêbado...

E é a partir destes fracassos que espero, reconciliado com minhas próprias sombras, que procuro alcançar a misericórdia divina.

Acho que era isso que Lutero queria dizer com "peca fortier", mas que seus inimigos de hoje e de outrora insistem tanto em distorcer...

Enfim, assume tua condição de pecador, encare tuas sombras, bata do peito, e clama pela misericórdia divina...

Eu já não suporto mais uma religião de tantos vencedores... ainda que, em certo sentido, sejamos mais que vencedores... (quando escreveram isso, os crentes eram perseguidos, mortos, martirizados...)