segunda-feira, 22 de março de 2010

Quem é você?


Semana retrasada houve, na maior parte das igrejas que seguem o calendário litúrgico, a leitura da conhecida parábola do filho pródigo (Lucas 15.11), ou parábola do pai misericoridoso, como preferem alguns. Quem sabe poderia ser também chamada de parábola do irmão mais velho, haja vista a participação também deste terceiro elemento.

Bom. O nome não importa; aliás, Jesus não ficava dando títulos ao seus contos e ensinamentos. Nós é que o fazemos.

O interessante nesta parábola é que podemos vê-la sob diferentes perspectivas. Podemos vê-la da perspectiva do pai, do filho gastão, ou do irmão mal humorado e enciumado, além de outras abordagens talves.

Fato é que, quando Jesus faz tal narrativa, ele está na casa de um fariseu, justamente em um contexto em que este grupo de religiosos tem dificuldade em aceitar pecadores para o reino, bem como parecem ter uma dificuldade em aplicar a misericórdia para com os que necessitam da graça divina. Daí, Calvino ter ensinado que a ênfase da parábola estar justamente na atitude do irmão mais velho, que representaria no caso o grupo dos fariseus.

Bom. Interpretações a parte, devocionalmente gostaria de propor a seguinte reflexão a partir deste texto, algo que refleti com um grupo de cristãos que leu em grupo este texto.

Com que você se parece mais nesta narrativa? (óbvio, que para responder tal pergunta você precisa ler o texto).

Será que você se parece com o filho mais novo, que pede a antecipação da herança (que, segundo alguns, na cultura de então, significava o desejo que o pai estivesse já morto), e que vai transloucada e irresponsavelmente em busca do seu sonho? Joga tudo para o alto e "vai pra cima", ainda que quebre a cara, como efetivamente ocorreu? Uma amiga, diaconisa, que pregou sobre este texto diz que talvez a figura do filho mais novo fosse de alguém bastante simpático, cheio de vida e de emoções, que até atraia a simpatia alheia.

Ou será que você se parece com o pai, que no dito de Rubem Alves, não soma créditos nem desconta débitos, mas está sempre disposto a amar? Que não resistiu ao mal, mas deu a liberdade que o filho requereu, e que este, quando volta arrependido, não usa de disciplina ou castigo, mas o retorna exatametne ao seu "status" anterior, fazendo inclusive uma grande festa, pois a volta de seu filho foi um tipo de ressurreição?

Ou será que você se parece com o filho mais velho? Aquele que não tem coragem suficiente para fazer o que o outro fez. Ou ainda que não o tivesse feito por responsabilidade ou dever, mas ainda assim, sentia-se, conforme disse um querido pastor, um miserável na casa do seu pai? Alguém que se julgava mais merecedor da atenção paterna e que teve muitíssima dificuldade em aceitar de volta o seu irmão que estava morto, mas que agora tinha revivido? Alguém que, ainda que com um discurso de justiça, na verdade mascarava sua mágoa em relação ao seu pai, e seu ciúmes, em relação ao seu irmão?

Será que no decorrer da vida somos, ora um, ora outro?

O ideal é que sejamos parecidos com quem?

Somos todos? Somos nenhum?...