terça-feira, 22 de março de 2011

Dos defeitos arraigados em nossas vidas


Quando lemos sobre a vida de alguns homens de Deus, vemos que eles não eram tão perfeitos quanto pensamos, e não obstante terem uma honrosa existência, apresentaram ao longo de suas vidas falhas de caráter, ou mesmo pecados arraigados dos quais não conseguiram se livrar.

Cito o exemplo de Moisés. É conhecido o relato de quando este assassinou um egípcio (Êxodo 2.11). Isto se deu porque viu um escravo hebreu ser maltratado por aquele, sendo que, após o fato, teve que fugir do Egito.

Se dermos crédito ao relato de Atos dos apóstolos, veremos que Moisés passou quarenta anos no Egito. E depois, quarenta anos no deserto, voltando após para o Egito, passando mais quarenta anos libertando os israelitas da Escravidão e conduzindo à terra prometida. Um total de quase cento e vinte anos (Atos 7.23, 30, 36).

Entretanto, no final do seu ministério, antes de entrar na terra prometida, cometeu um erro diante de Deus. Isto porque, o Senhor o havia mandado “falar” para a rocha dar água no deserto (Números 20.8); entretanto, Moisés, em um momento de ira para com o povo, “bateu” com o cajado na rocha, por duas vezes (Números 20.11). Parece um ato insignificante, mas, por trás deste, na verdade, ficou demonstrado, oitenta anos depois o mesmo espírito homicida que antes havia resultado no assassinato do egípcio. E isto lhe custou a proibição de entrar na terra prometida (Números 20.13).


Outro exemplo de servo do Senhor que lutou contra sua “sombra”, foi o do Apóstolo Pedro. Todos os leitores do evangelho sabem que o referido apóstolo se apresentava sempre como o primeiro e o mais destemido dos seguidores de Cristo. Que foi o primeiro a ressaltar que jamais iria negar e trair o Mestre (Mateus 26.33). Mas como sabemos, acabou negando-o por três vezes.

Após, passamos pela morte e ressurreição de Cristo e pelo Pentecostes, e pela conversão de milhares e milhares ao ouvirem a mensagem de Pedro. Passamos também por Cornélio e pela inclusão dos gentios. Entretanto, curiosamente, houve uma ocasião em que Paulo e Pedro comiam juntamente com cristãos gentios de Antioquia, quando chegaram da parte de Tiago, crentes de Jerusalém. E o apóstolo Pedro, movido por medo (tendo em vista o preconceito judaico), covardemente, levantou-se, apartando-se dos gentios (Gálatas 2.12). E vejam; não se tratava de fariseus judeus, mas sim de cristãos judeus. E Paulo repreendeu Pedro com veemência, ficando este, provavelmente, com a mesma cara de tacho de quando traíra a Cristo.

E se dermos crédito à tradição, tal fato se repetiu ainda mais uma vez na vida de Pedro. A tradição nos relata que, quando os cristãos estavam sendo mortos em Roma, Pedro conseguiu uma rota de fuga, abandonando os crentes romanos. Entretanto, na saída da cidade, deparou-se com Jesus, que lhe perguntou: “Vai me negar de novo, Pedro?”. E este, caindo em si, retornou à cidade, entregou-se às autoridades, e pediu para ser crucificado de ponta cabeça.

Peço vênia, sob pena de este artigo ficar um pouco extenso, para ainda para citar o exemplo do Apóstolo Paulo. Este foi um grande perseguidor do nascente cristianismo, jogando muitos à prisão, e consentindo com a morte de outros, superando, em intolerância, muitos judeus de seu tempo, contrariando inclusive os conselhos do sábio Gamaliel, seu antigo mestre.

Após sua conversão, em sua primeira viagem missionária, decepcionou-se um pouco com João Marcos, visto que este desistiu no meio de uma missão (Atos 13.13). Após tal episódio, falou mais alto o antigo espírito de intolerância de Paulo, e este impediu Marcos de estar na próxima missão (Atos 15.38), ocasionando, por conta de tal decisão, a sua própria separação do apóstolo Barnabé (Atos 15.39), este, decididamente, um homem mais tranqüilo e tolerante.

Entretanto, alguns anos depois, Paulo, ao escrever talvez uma de suas últimas epístolas, em um ato de humildade, manda chamar Marcos de volta, afirmando que este era muito importante para o seu ministério (2 Tim 4.11).

Estes foram os exemplos de três dos maiores homens de Deus, grandes personagens bíblicos, e suas lutas contra suas “sombras”, por assim dizer. Homens que se esforçaram para caminhar com Deus, e serem perfeitos diante d’Ele. Mas que podemos aprender com a história de suas vidas, neste aspecto?

Certamente as lições são inúmeras.

Em primeiro lugar, quero ressaltar a sombria lição de que, é bem provável que iremos levar algumas de nossas lutas, nossos defeitos de caráter, pelo resto de nossas vidas. Foi o que ocorreu com os mencionados homens de Deus. Conosco, provavelmente, não será diferente. A conversão, e uma longa experiência de Deus não os livraram de suas dificuldades interiores, dos seus defeitos arraigados, ou mesmo de suas tendências pecaminosas, se é que podemos falar assim. Sei que parece um pouco derrotista a afirmação de uma coisa destas, mas parece que há um fato a se encarar. Temos determinadas fraquezas, e é provável que estas nos acompanhem o resto de nossas vidas.

Isso não significa que devamos nos entregar a elas. Muito pelo contrário, devemos vigiar. Aprender a nos conhecer, fazer um auto-exame, para podermos lidar com elas. Vale a pena observar que as fraquezas dos mencionados homens de Deus vieram a tona em momentos de grande tensão; e nestes momentos, eles não souberam manter a tranqüilidade, a vigia atenta. No Oriente cristão, penso que os grandes hesicastas esforçaram-se para aprender a lidar com este tipo de tentação. “Hesequia” significa “tranqüilidade de coração”, para, entre outras coisas, não agir por impulso.

Agora, a segunda, mas não menos importante lição, é o fato de que Deus conhece nossas fraquezas, e pela sua maravilhosa graça é que somos alcançados todos os dias de nossa vida. Apesar da severidade de Deus, na verdade, Ele nos ama como a um Pai, e cuida de nós, e não obstante suas correções, das quais os filhos não estão isentos, tudo o que faz é por amor. Ele nos aceitou, com nossos defeitos e mazelas, pela sua maravilhosa graça, e é esta que atua em nós. Conscientes de todas estas coisas, das fraquezas em nós, das fraquezas em nossos irmãos, e da maravilhosa graça de Deus, nos tornamos mais tolerantes uns com os outros. Quem não é tolerante, nada sabe, ou não quer enxergar acerca de si próprio, nem do próximo, e talvez esteja até não conheça, ou tenha se esquecido da graça de Deus em sua própria vida. Não obstante suas falhas, Moisés, Pedro e Paulo, e tantos outros homens e mulheres têm seus nomes escritos no livro da vida. Pela graça de Deus, nós, que também somos sujeitos a todo tipo de erro, havemos também de ter.